É oportuno refletir, mesmo que seja brevemente, sobre uma entre as suas diversas afirmações feitas na entrevista: “Só um homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana”, e porque “o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do islã é um entrave e um inibidor da autonomia do homem”.
Michel Onfray está na linha dos críticos da religião do século XIX (Nietsche, Marx e Freud). O cristianismo da época bebia da filosofia deísta, que via confronto entre Deus e o Ser humano: para afirmar a iniciativa de Deus deve-se negar o valor da liberdade humana, e a afirmação da liberdade humana só é possível mediante a negação de Deus.
Mas reduzir a religião a essa ideia de Deus e da liberdade humana significa desconhecer a evolução do pensamento teológico dos últimos dois séculos. No caminho aberto pela teologia clássica, as boas teologias de hoje articulam de uma forma exigente e coerente Reino e História, Graça divina e Liberdade humana, ação de Deus e luta social.
Faz tempo que muitos cristãos e outros crentes procuram crer com honradez intelectual, mostrar a complementaridade entre razão e fé, e enfatizar as consequências éticas e sociais da religião. Sem falar nos inumeráveis testemunhos históricos de homens e mulheres radicalmente livres, e no engajamento dos cristãos nas lutas emancipatórias.
É verdade que, em nome da fé, foram feitas guerras e legitimadas dominações de gênero, de classe, de cultura, de nação, etc. Mas isso faz parte da ambivalência de todos os movimentos históricos e iniciativas humanas, inclusive da filosofia e da religião. Não é verdade que, por trás de cada ideologia totalitária, está uma corrente filosófica?
Afirmando a transcendência absoluta de Deus, a teologia judaico-cristã relativiza todos os conceitos e instituições. Ao mesmo tempo, afirma a dignidade incorruptível de cada criatura, em razão de sua relação ontológica com a divindade. O conflito só existe entre um pensamento fechado e uma noção de Deus como Outro que chama, desperta e envia.
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