A regressão de idade é um estado mental em que a pessoa volta, de forma temporária, a comportamentos, gestos e formas de comunicação típicos da infância. Pode surgir de maneira involuntária, como mecanismo inconsciente de defesa descrito por Freud, ou ser adotada voluntariamente como forma de autocuidado, relaxamento ou mesmo estilo de vida.
Os adeptos afirmam que esses momentos trazem conforto, segurança e alívio emocional, funcionando como uma pausa das responsabilidades e pressões da vida adulta. Para alguns, a experiência inclui brincadeiras, uso de roupas infantis e interação com cuidadores — conhecidos como caregivers — que assumem o papel de “responsáveis” durante a regressão.
Por que adultos recorrem a esse comportamento
De acordo com o psiquiatra Iago Fernandes, a sucção — seja de chupetas, mamadeiras ou objetos similares — ativa respostas fisiológicas calmantes, associadas às sensações de segurança vividas nos primeiros anos de vida.
A neurocientista Ana Carolina Souza explica que atos repetitivos como chupar uma chupeta estimulam o sistema parassimpático, responsável por desacelerar o corpo e induzir relaxamento.
O psicanalista Artur Costa reforça que o reflexo da sucção remete ao vínculo afetivo da amamentação, gerando sensação imediata de aconchego.
Já a psicóloga Camila Custódio destaca que, para muitas pessoas, a regressão é um recurso consciente para “desligar” das exigências externas, funcionando como refúgio emocional em períodos de sobrecarga ou ansiedade intensa.
Modos e contextos
Há quem vivencie a regressão de forma esporádica, em momentos de crise emocional, e há quem incorpore o hábito à rotina, com uso regular de objetos e acessórios infantis. Alguns compram itens adaptados para adultos — chupetas maiores, mamadeiras especiais, brinquedos sensoriais — vendidos em sites internacionais.
Durante a pandemia, relatos nas redes sociais indicam que a prática se intensificou, ajudando alguns a lidar com o isolamento e a incerteza.
Em ambientes terapêuticos, a regressão de idade também é utilizada para acessar memórias ou lidar com traumas, embora essa abordagem seja controversa e sem comprovação científica robusta.
O papel das comunidades e cuidadores
Plataformas como TikTok, Instagram e fóruns online abrigam comunidades dedicadas ao tema. Nessas redes, regressores compartilham experiências, mostram suas rotinas e interagem com caregivers.
Os cuidadores podem ajudar o regressor a se sentir protegido e acolhido até que ele retome o estado adulto. Para muitos, a rede de apoio virtual é um espaço livre de julgamento, onde é possível explorar essa faceta pessoal com mais segurança.
Riscos físicos
Dentistas alertam que o uso prolongado de chupetas em adultos pode provocar:
•Mordida aberta — desalinhamento dos dentes da frente;
•Alterações na deglutição, conhecidas como tongue thrust;
•Problemas na articulação da mandíbula;
•Irritações gengivais;
•Potencial sufocamento durante o sono.
Mesmo versões “adaptadas” não eliminam completamente esses riscos.
Impactos emocionais
Embora possa gerar alívio momentâneo, psicólogos alertam que o comportamento pode reforçar a infantilização e funcionar como fuga de responsabilidades, sem enfrentar as causas profundas da ansiedade ou do estresse.
Há também uma vertente do fenômeno que se relaciona ao ageplay e ao ABDL (Adult Baby Diaper Lover), com conotações sexuais — um tema polêmico que, embora não envolva crianças, suscita debates éticos e sociais.
Relatos de quem vive
Em fóruns como o Reddit, alguns usuários afirmam que a regressão é “a melhor ferramenta” para lidar com a ansiedade e até para manter a sobriedade, substituindo o álcool. Outros defendem o uso apenas ocasional, para evitar problemas de saúde bucal, e indicam alternativas como “chewlery” (objetos de mastigação) ou chupetas anatômicas.
Entre o conforto e o alerta
Especialistas recomendam que a prática seja limitada a momentos pontuais e, se possível, acompanhada por psicoterapia. Embora ofereça conforto imediato, a age regression não substitui estratégias terapêuticas capazes de promover resiliência e autoconhecimento.
Para uns, é um refúgio inofensivo; para outros, um sintoma de que algo mais profundo precisa de atenção. O certo é que o tema divide opiniões e revela muito sobre como os adultos de hoje estão buscando — ou recriando — espaços de segurança emocional.
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