Mas o tom do evento foi marcado por uma polêmica: a exclusão de parlamentares, prefeitos, lideranças rurais e jornalistas brasileiros, impedidos de acessar as plenárias por decisão do Secretariado da Convenção, amparada no artigo 5.3 da CQCT. A restrição gerou indignação e abriu uma agenda paralela em Genebra, com três encontros realizados entre a delegação excluída e diplomatas brasileiros para tentar ampliar a transparência do processo.
Os principais temas da COP11
1. Nova geração de produtos de nicotina
A explosão do uso de cigarros eletrônicos, vapes e tabaco aquecido entre jovens levou a propostas de endurecimento de regras — que variam de restrição severa à possibilidade de banimentos parciais ou totais.
2. Banimento de filtros e responsabilidade ambiental
Filtros são alvo de pressão ambiental global, mas no Brasil a discussão ganha contornos econômicos e legais. Há propostas para banir filtros ou impor taxas compensatórias à indústria.
3. Impostos e medidas econômicas
A OMS defende a elevação de tributos como forma eficaz de reduzir o consumo, enquanto países produtores alertam para o risco de crescimento do contrabando.
4. Combate ao comércio ilícito
Na MOP4, que ocorre em paralelo, países discutem rotas ilegais, falsificação e estratégias conjuntas de fiscalização — tema crítico para o Brasil, onde o cigarro ilegal supera o legal em vários estados.
Brasil: entre o protagonismo sanitário e a defesa da economia regional
O país é referência mundial em controle do tabagismo, mas também depende economicamente da produção. No Rio Grande do Sul, mais de 138 mil famílias vivem da fumicultura, que sustenta empregos, indústrias e municípios inteiros.
Por isso, a exclusão da comitiva brasileira ligada ao setor acendeu ainda mais a tensão. A missão paralela participou de três encontros com o embaixador brasileiro em Genebra, Tovar Nunes, que reconheceu o impasse:
“A COP é um espaço de saúde, mas não podemos ignorar o lado social, econômico e produtivo. O caminho é o diálogo”, disse o diplomata.
A demanda por tabaco vai acabar? Dados indicam estabilidade
Apesar da queda percentual no número de fumantes, o total absoluto permanece estável — e tende a crescer com o aumento da população mundial. Projeções apontam:
2025: 1,3 bilhão de fumantes
2038: entre 1,359 e 1,431 bilhão
2057: cerca de 1,395 bilhão
Para Valmor Thesing, presidente do SindiTabaco, os números derrubam o discurso de “fim do tabaco”:
“Enquanto houver demanda, alguém vai produzir. O Brasil não pode perder espaço para o mercado ilegal.”
ENTREVISTA – Marco Dorneles (Afubra) fala sobre exclusão, riscos e o futuro da cadeia produtiva
Vice-presidente da Afubra, Marco Dorneles acompanha a COP11 em Genebra, mesmo sem acesso às plenárias. Ele avalia a atuação da delegação brasileira e os riscos que os debates representam para os agricultores.
Como o senhor avalia a atuação da delegação brasileira na COP11?
Marco Dorneles:
A delegação brasileira tem papel fundamental aqui. Mesmo sem o nosso credenciamento — o que consideramos inaceitável — conseguimos manter uma agenda firme com o embaixador Tovar Nunes e com o Itamaraty. Eles nos ouviram e vão relatar ao governo brasileiro nossas preocupações. Viemos defender o emprego e o sustento de milhares de agricultores familiares e trabalhadores da indústria. A presença de prefeitos, deputados e entidades foi decisiva para abrir esse diálogo.
Quais são as principais preocupações da Afubra em relação ao banimento de filtros e às novas regras para produtos de nicotina?
Marco Dorneles:
O banimento de filtros não faz sentido. No Brasil, eles não são de plástico — são biodegradáveis. Além disso, o filtro reduz a absorção de nicotina e outras substâncias. Se forem proibidos, o cigarro ilegal, que continuará com filtro, ganhará mercado. Isso prejudica o consumidor, o produtor e a indústria brasileira.
Quanto aos novos produtos de nicotina, defendemos regulamentação, não proibição. É um mercado que cresce no mundo. A Anvisa proíbe no Brasil, mas o consumo existe — e está nas mãos do comércio ilegal. Também acompanhamos com atenção como isso pode afetar a demanda por folha de tabaco. A substituição por nicotina sintética, por exemplo, seria muito prejudicial.
A COP11 considera a realidade socioeconômica das regiões produtoras?
Marco Dorneles:
A conferência produz recomendações, não obrigações. E o Brasil, quando ratificou a Convenção, deixou claro que não aplicaria restrições à produção agrícola de tabaco. O que vemos, porém, é pouca abertura para ouvir quem realmente vive da fumicultura.
Por isso nossa presença aqui é indispensável — antes, durante e depois da COP. Precisamos garantir que as decisões respeitem o direito das 138 mil famílias produtoras e de todo o setor que gera empregos, renda e impostos. Estaremos sempre em Genebra, porque quem não é visto não é lembrado.
Próximos passos
A COP11 termina no sábado (22), mas suas decisões — mesmo como recomendações — influenciarão:
agências reguladoras,
debates legislativos,
políticas de saúde pública,
e o futuro da produção de tabaco no Brasil.
Para regiões fumageiras do Rio Grande do Sul, o que está em discussão em Genebra terá reflexos diretos no campo, na indústria e nas contas públicas dos municípios.
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