Semana passada escrevi sobre a Semana da Pátria, as comemorações e o desvirtuamento que ocorreu nos últimos tempos, mais especificamente a partir do início do governo de Jair Bolsonaro, de alguns termos e conceitos relacionados à data como patriota e patriotismo. Alguns leitores concordaram e manifestaram sua concordância, outros, se não concordaram, não dividiram comigo sua discordância.
Sei que o tema é polêmico, ainda mais considerando que tais discussões estão no cerne da polarização política que tem sido a realidade de nosso país nos último tempos. Essa polarização não é saudável, pois que em uma situação tão complexa quanto a política, é equivocado pensar que possam existir apenas “duas verdades” e, pior, verdades que se acham absolutas… Interessante é que aqueles que não se identificam com um lado ou outro, recebem a resistência e a oposição dos chamados de ambos aqueles, principalmente dos chamados “alinhados”.
* Gostei de ver
Gostei muito de ver que na edição de semana passada da Gazeta Popular, o Bispo de Santa Cruz do Sul, Dom Itacir Brassiani, tratando também da Semana da Pátria, mas no seu (do Bispo) contexto próprio, escreveu no mesmo sentido que eu, qual seja, sobre o desvirtuamento de algumas comemorações e de alguns conceitos relativos à data (do Sete de Setembro) e a significação para nosso país. Daí que destaco o seguinte excerto: “hoje, em meio às tentativas de apropriação ideológica das cores e dos símbolos nacionais, precisamos libertá-los do sequestro que estão sofrendo…” (GP 05/9/25, pág 23). Vale a leitura. Sinal de que não estou tão errado então.
* A tal da polarização
Na esteira do que disse acima, vejo que os bolsonaristas agridem e ofendem todos os que não pensam como eles, pois que os veem como antipatriotas e inimigos e, pior, como lulistas ou petistas, o que na realidade não são necessariamente, pelo contrário. Já os lulistas veem os que não pensam como eles como adversários ou como alinhados às ideias e conceitos dos bolsonaristas, sendo alguns mais radicais chegam a vê-los como inimigos também. Vai então que, nesse processo de polarização, a radicalização torna os lados antagônicos bastante parecidos, principalmente na defesa de suas ideias. E não deixa espaço para os que não são alinhados ou que pensam diferente.
* E nossa Democracia, nessa situação?
O bom da Democracia, assim, com letra maiúscula, é isso: podemos expor nossos diferentes pontos de vista na mesma proporção que aqueles que pensam diferente também podem expor o seu.
O objetivo em um choque de ideias nunca deve ser no intuito de agredir ou ofender quem pensa diferente, mas no sentido de fomentar a discussão saudável e esclarecedora.
Na Democracia tem espaço e tempo para todos, para bolsonaristas, para lulistas, para quem não é alinhado nem com um nem com outro, para quem gosta de política, para quem não gosta, e por aí vai… Em uma ditadura ou estado de exceção isso nunca, NUNCA mesmo, ocorreria.
O problema, no caso brasileiro, é que um dos lados optou pela radicalização e daí que o diálogo, a discussão saudável, a dialética e a disputa de ideias passaram a ser vistas como instrumentos e institutos a serem evitados e, pior, combatidos. Para esses, a Democracia passou a ser um entrave, algo a ser extinto.
O risível é que muitos em nome da democracia defendem justamente os atos e as relações antidemocráticas; para defendê-la, querem o seu fim!
* Na Semana da Pátria um presente ao Brasil
Sim, recebemos um presente!
O julgamento no STF dos acusados pela tentativa de golpe de Estado e abolição do Estado de Direito no Brasil, entre outros crimes, foi um belo presente que nossa pátria amada recebeu – e eu nem estou falando do resultado… Mostrou amadurecimento institucional de nossos poderes constituídos e legitimou a atuação do Poder Judiciário. É mais um passo na (re)afirmação de nossa recente Democracia.
Mesmo se os meliantes e facínoras não fossem condenados, mesmo assim, só pelo fato de o Judiciário julgar aqueles que até pouco tempo o ameaçavam, ofendiam, agrediam e ironizavam, só isso já foi, ao menos no meu ponto de vista, suficiente para mostrar que sim, nossa Democracia saiu fortalecida desse processo. O Brasil está de parabéns; os defensores da Democracia, sejam eles de direita, de centro, de esquerda ou nenhum, também estão.
Mas fiquemos solertes, pois as forças do mal não descansam…
* Mas e o resultado?
A menos a mim não surpreendeu. O 4 X 1 pela condenação mostra que aos Ministros a tentativa de golpe foi material, o risco foi iminente, e as provas apresentadas pela Procuradoria Geral da República apontavam nesse sentido, pois que acatada por aqueles que condenaram os golpistas bandidos.
Quanto ao voto destoante, até certo ponto achei muito interessante a proposta do Ministro, pois que era seu desejo mesmo mostrar a discordância com relação às decisões que já haviam sido proferidas. Questionou a competência do STF para julgar tais crimes, relativizou algumas provas e argumentos, etc., e tudo muito normal, tudo dentro do “jogo judicial” baseado no princípio do livre convencimento do juiz. Porém, e sempre há poréns, quando ele alegou que não houve nenhuma tentativa de golpe de Estado ou abolição do estado de direito no Brasil, e mais, quando ele não reconheceu culpa nos muitos acusados, condenando apenas dois, ali naquele momento para mim ele perdeu o crédito, pois que só ele não enxergou o que todo mundo viu, inclusive os próprios apoiadores do presidente condenado e seus asseclas; ele foi contra o óbvio e, pior, contra tudo que havia sido materialmente apresentado e provado nos autos do processo. A manifestação dele para absolver os réus me soou muito como um “Mise en scène”. O constrangimento que ele deixava transparecer durante o voto dos ministros que julgaram depois dele pareceu corroborar minhas impressões. Ou não, vai saber.
O resultado foi mais um ponto para a nossa Democracia, pois numa ditadura jamais haveria um julgamento público como o que vemos, e muito menos ainda um julgador poderia destoar radical e subjetivamente dos demais. E depois de tudo ainda há quem pregue o seu (da Democracia) fim…
Ficamos assim, na expectativa do que está por vir. É assunto que obviamente não se esgota. Voltaremos!
* Miscelânea
Fenômeno interessante: o que tem de Médico patriota, Empresária patriota, Funkeiro patriota, Agricultor patriota, Blogueiro patriota, Ator patriota e por aí vai, falando bobagens nas redes sociais sobre a realidade político-social-econômica do Brasil é de fazer rir. Ou chorar. E muita gente não só acreditando como aplaudindo. Feliz é nossa Democracia, que aceita tudo isso.
Só eu que vi a bandeira dos Estados Unidos nas mãos dos patriotas durante as comemorações da Semana da Pátria Brasileira? Interessante esse tipo de patriotismo, ahahahahah.
Bom fim de semana e até à próxima, se Deus quiser.
PS: alguém me explica essa função do combustível que foi parar até na Câmara de Vereadores aqui do Vale?
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