Patriotismo entre a tradição e os novos tempos
Hino, bandeira e desfiles mantêm seu valor simbólico em um Brasil que debate pertencimento, cidadania e diferenças políticas

Cantar o Hino Nacional, acompanhar o hasteamento da bandeira e desfilar no Sete de Setembro fazem parte da memória de gerações de brasileiros. O som das bandas, os ensaios escolares e a passagem dos estudantes pelas ruas transformaram a celebração da Independência em um momento de encontro entre escola, família e comunidade. Em 2026, quando o país completa 204 anos de emancipação política, essas práticas continuam presentes, mas convivem com novas maneiras de expressar o pertencimento ao Brasil.
A história mostra que o patriotismo brasileiro nunca teve uma única forma. Os símbolos nacionais atravessaram a monarquia, a República, períodos autoritários e a redemocratização. Ao longo desse percurso, foram utilizados para celebrar a identidade coletiva, ensinar comportamentos, legitimar governos e mobilizar a população. Entender essas mudanças permite observar o presente sem reduzir o debate à ideia de que, antes, todos eram patriotas e, hoje, esse sentimento teria desaparecido.
O Hino que gerações aprenderam a cantar
O próprio Hino Nacional passou por transformações. A música de Francisco Manuel da Silva está associada aos acontecimentos de 1831, ano da abdicação de Dom Pedro I. Os versos que hoje acompanham a melodia, escritos por Joaquim Osório Duque-Estrada, foram oficializados somente em 1922, no centenário da Independência.
Pesquisa histórica publicada pelo Senado mostra que a composição recebeu letras diferentes durante o Império. Uma delas celebrava a abdicação do primeiro imperador; outra, surgida em 1841, exaltava Dom Pedro II. A trajetória revela que o significado político atribuído à mesma música mudou conforme o momento vivido pelo país.
Na versão atual, o Hino combina referências à Independência, à liberdade e à grandeza do território. Seu vocabulário e a construção dos versos refletem a linguagem literária do período em que a letra foi elaborada. Em explicação à Rádio Senado, o historiador Pierre Grangeiro relaciona essa linguagem ao esforço de construção da identidade nacional e à influência do parnasianismo, movimento que valorizava a elaboração formal e a estética clássica.
Aprender a cantá-lo tornou-se uma experiência compartilhada por sucessivas gerações de estudantes. A prática permanece prevista na legislação: a Lei nº 12.031, de 2009, estabeleceu a execução semanal do Hino Nacional nos estabelecimentos públicos e privados de ensino fundamental. A existência da norma, entretanto, não informa, por si só, como cada escola realiza a atividade ou trabalha o significado da letra com seus alunos.
Desfilar era também aprender a pertencer
Os desfiles escolares ajudaram a dar uma dimensão pública à educação cívica. Ao ocupar as ruas, a escola apresentava seus estudantes à comunidade e participava de uma narrativa sobre a nação. Bandeiras, uniformes, movimentos coordenados e homenagens reuniam elementos de celebração, disciplina e identificação coletiva.
Essas práticas também se relacionavam com o ambiente político. No estudo Desfiles cívicos escolares no Estado Novo: uma interpretação pelas fotografias, o historiador Juarez José Tuchinski dos Anjos analisa imagens de um desfile realizado em 1941, na cidade da Lapa, no Paraná. A pesquisa identifica relações entre a escola primária, as apresentações públicas e a ideologia daquele período.
O estudo ajuda a compreender que o desfile não era apenas uma atividade festiva. Sua organização também comunicava valores e expectativas sobre a formação das crianças e sobre seu lugar na sociedade. Essa dimensão política pode coexistir com as lembranças pessoais de orgulho, entusiasmo e convivência construídas pelos participantes.
Durante a ditadura militar, o civismo voltou a receber forte investimento oficial. Pesquisa de Cristina Ferreira e Ana Carolina Zimmermann, publicada na Revista Brasileira de História da Educação, examina como comemorações e materiais escolares foram utilizados para promover a memória favorável ao regime. A disciplina de Educação Moral e Cívica, implementada em 1969, integrou esse contexto.
As autoras mostram que os rituais patrióticos podiam servir à legitimação do poder. Por isso, a história exige distinguir o vínculo afetivo da população com o país dos usos que os governos fizeram desse sentimento.
A tradição continua, com outros temas
As programações anunciadas para setembro de 2026 mostram a permanência dos desfiles e a diversidade de suas propostas. Em Cachoeira do Sul, no Rio Grande do Sul, a organização abriu participação para escolas e entidades e incluiu referências aos Sete Povos das Missões, à história da Polícia Civil e ao centenário do escotismo local. A programação preserva elementos tradicionais, como o Fogo Simbólico e o acendimento da Pira da Pátria.
Em Campina Grande, na Paraíba, a rede municipal prepara a participação de cerca de 4 mil estudantes com o tema “Equidade, Sustentabilidade e Tecnologias: conexões que transformam”. O exemplo mostra como a celebração pode incorporar questões contemporâneas ao trabalho escolar, relacionando a ideia de país ao meio ambiente, à inclusão e às mudanças tecnológicas.
Essas experiências não representam todas as escolas brasileiras, mas demonstram que a tradição permanece ativa e admite diferentes abordagens. O formato solene e a apresentação de projetos pedagógicos podem ocupar o mesmo espaço.
Quando a bandeira entra na disputa política
Outro componente do presente é a associação dos símbolos nacionais às disputas partidárias. A bandeira e as cores verde e amarela, também presentes no esporte e nas comemorações cívicas, passaram a funcionar, em determinados contextos, como sinais de posicionamento político.
Em artigo publicado em 2026 pelo Jornal UFG, os pesquisadores Weber Tavares da Silva Junior e Maria Angélica Pedra Minhoto analisam a vinculação recente desses símbolos ao bolsonarismo. Na interpretação dos autores, essa associação levou parte da população a recear que o uso da camisa da seleção ou da bandeira fosse entendido como declaração de apoio político.
“Os símbolos nacionais não pertencem a um determinado espectro ideológico, pertencem ao povo do Brasil”, afirmam. Trata-se de uma análise sobre a disputa de significados, e não de uma medida do sentimento de todos os brasileiros.
Essa distinção é relevante: usar as cores nacionais não permite concluir, isoladamente, qual é a posição política de alguém. Da mesma forma, a ausência em um desfile não basta para avaliar o vínculo de uma pessoa com o país.

O sentido da celebração
As fontes consultadas não permitem afirmar que o brasileiro de hoje seja menos patriota do que o de outras gerações. Elas mostram mudanças nas formas de celebrar e nos sentidos atribuídos aos símbolos. Uma comparação sobre aumento ou diminuição desse sentimento exigiria pesquisas representativas, realizadas ao longo do tempo.
Cantar o Hino e desfilar continuam sendo formas de expressão do pertencimento nacional. O debate contemporâneo acrescenta perguntas sobre o conteúdo dessa participação: que história está sendo ensinada, quais grupos aparecem nas homenagens e como a celebração se relaciona com a vida da comunidade.
Aos 204 anos da Independência, o Sete de Setembro reúne, assim, memória e reflexão. A continuidade dos rituais preserva experiências compartilhadas entre gerações; a discussão sobre seus significados permite relacioná-los à cidadania e à diversidade da população. É nessa convivência entre tradição e transformação que os brasileiros seguem expressando sua relação com o país.
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