204 anos de Independência: os caminhos que formaram o Brasil
Documentos e pesquisas históricas revelam as disputas, as guerras e as contradições da separação de Portugal

O Brasil completa, em 7 de setembro de 2026, 204 anos de Independência. A data remete à proclamação de Dom Pedro às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo, mas a formação do país independente envolveu muito mais do que aquele episódio. Foi resultado de uma crise do Império português, de disputas sobre o poder, de mobilizações populares e de guerras que continuaram depois de 1822. A soberania política criou um novo Estado, enquanto a escravidão e as desigualdades permaneceram presentes na organização da sociedade.
Essa combinação de mudanças e permanências é uma das chaves utilizadas pelos historiadores para compreender o período. “Por mais abrangente que seja, nenhuma revolução se faz totalmente de transformações”, afirmou o historiador João Paulo Pimenta, professor da Universidade de São Paulo, em reportagem da Agência Senado publicada em 2022. Sua análise ajuda a entender por que a Independência representou uma ruptura política profunda sem assegurar liberdade e participação a todos os habitantes.
Uma separação construída antes do Ipiranga
Os antecedentes da Independência passam pela transferência da Corte portuguesa para o Brasil, em 1808, diante do avanço das tropas napoleônicas na Europa. A presença da monarquia no Rio de Janeiro e a abertura dos portos modificaram a posição do território dentro do Império português. Em 1815, o Brasil foi elevado à condição de reino, integrando o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.
A Revolução Liberal do Porto, em 1820, alterou novamente esse equilíbrio. O movimento defendia uma Constituição e o retorno do centro de poder a Portugal. Dom João VI voltou a Lisboa em 1821 e deixou seu filho, Dom Pedro, como príncipe regente no Brasil. As decisões das Cortes portuguesas passaram a confrontar os interesses dos grupos que pretendiam preservar a autonomia conquistada.
A mostra documental do Arquivo Histórico Parlamentar de Portugal registra que, em 9 de janeiro de 1822, uma petição com mais de 8 mil assinaturas pediu a permanência do príncipe. A decisão de ficar, conhecida como Dia do Fico, aprofundou o enfrentamento com Lisboa.
Leopoldina e Bonifácio nas articulações políticas
Nos meses seguintes, o rompimento ganhou força. José Bonifácio de Andrada e Silva tornou-se uma figura central do governo e das articulações em torno de Dom Pedro. Maria Leopoldina também participou das decisões políticas: em 2 de setembro de 1822, durante a viagem do príncipe a São Paulo, presidiu uma reunião que examinou as medidas vindas de Portugal.
A dimensão do conflito aparece em uma carta de Dom Pedro ao pai, reproduzida na cronologia histórica do Governo Federal: “É um impossível físico e moral Portugal governar o Brasil, ou o Brasil ser governado por Portugal.”
A frase expressa o grau de desgaste da relação entre os dois centros de poder. As mensagens de Leopoldina e de José Bonifácio chegaram a Dom Pedro em 7 de setembro, integrando a sequência de acontecimentos que levou à proclamação no Ipiranga. A decisão, portanto, estava ligada a um processo político em andamento, com debates e medidas anteriores à viagem.
A Independência também foi conquistada em guerras
O anúncio da separação não encerrou os conflitos nem garantiu adesão imediata ao governo instalado no Rio de Janeiro. O Arquivo Nacional ressalta que as províncias tiveram experiências distintas: em algumas, o reconhecimento da autoridade de Dom Pedro aconteceu mais rapidamente; em outras, houve resistência e enfrentamentos prolongados.
A Bahia constitui um dos exemplos mais expressivos. Os combates envolveram Salvador e o Recôncavo, com participação militar e civil, e se estenderam até a retirada das tropas portuguesas, em 2 de julho de 1823. A data permanece como marco da Independência na memória baiana.
Essas experiências regionais mostram que o país não se tornou politicamente unido por um único gesto. A consolidação da separação dependeu de disputas sobre quem governaria, quais interesses prevaleceriam e como as províncias se relacionariam com o novo poder central.
Um país independente que manteve a escravidão
Uma das principais contradições de 1822 foi a preservação do trabalho escravizado. A ruptura com Portugal não libertou as pessoas submetidas ao cativeiro. O novo Estado continuou sustentado por uma estrutura econômica e social na qual seres humanos eram tratados como propriedade.
Na análise apresentada por João Paulo Pimenta à Agência Senado, a manutenção da escravidão esteve profundamente ligada ao projeto político vitorioso. A autonomia brasileira conviveu, nas décadas seguintes, com a expansão da economia cafeeira e da exploração do trabalho escravizado. A liberdade nacional tinha, assim, um significado muito diferente da liberdade individual negada a uma parcela da população.
Isso não significa que inexistissem propostas contrárias à escravidão entre personagens da Independência. Estudos publicados pela Fundação Alexandre de Gusmão mostram que José Bonifácio defendia a suspensão gradual do tráfico e o fim do regime escravista. Suas posições, porém, esbarravam nos interesses agrários e nas disputas que atravessavam o próprio governo. A existência dessas propostas evidencia que os rumos do novo país estavam em discussão e não eram consensuais.
A Constituição revela os limites da cidadania
A Constituição de 1824 permite observar como o Império organizou o poder depois da separação. O documento estabeleceu uma monarquia hereditária e representativa, mas concentrou importantes atribuições no imperador.
O artigo 98 definiu o Poder Moderador como “a chave de toda a organisação Politica”, na grafia da época. Entre suas atribuições estavam nomear senadores, escolher e demitir ministros e dissolver a Câmara dos Deputados, com a convocação de outra.
A participação eleitoral também dependia da renda. O texto exigia renda anual de 100 mil réis para votar nas assembleias paroquiais, primeira etapa do sistema eleitoral, e de 200 mil réis para ser eleitor na etapa seguinte. Os libertos eram expressamente excluídos dessa segunda condição. Para a elegibilidade a deputado, a exigência subia para 400 mil réis.
Esses dispositivos mostram que a representação política estava submetida a filtros econômicos e sociais. A Independência havia criado um Estado soberano, mas a participação em suas decisões permanecia restrita.
O reconhecimento português veio em 1825
A separação também exigiu negociações internacionais. Portugal reconheceu a Independência em 29 de agosto de 1825, quase três anos depois do episódio do Ipiranga.
O acordo contou com mediação britânica e envolveu uma indenização de 2 milhões de libras a Portugal, além da concessão a Dom João VI do título honorífico de imperador do Brasil. A negociação demonstra que a consolidação da soberania passou tanto pelos campos de batalha quanto pela diplomacia e pelos compromissos financeiros assumidos pelo novo Estado.
A imagem do Sete de Setembro foi construída depois
A memória da Independência também tem história. A pintura Independência ou Morte!, de Pedro Américo, foi concluída em 1888, 66 anos depois do acontecimento que representa. A composição tornou-se uma das imagens mais conhecidas do passado brasileiro, com Dom Pedro a cavalo, cercado por uma comitiva em uma cena solene.
Trata-se de uma interpretação artística posterior. A pesquisa histórica sobre a obra examina como sua circulação em exposições, publicações e reproduções ajudou a consolidar determinada imagem da fundação do país, concentrada no príncipe e no episódio do Ipiranga.
Um estudo publicado em 2025 na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, da USP, analisa justamente essa circulação. O trabalho permite compreender a pintura como parte da construção da memória nacional, além de seu valor artístico.
Ao completar 204 anos, a Independência pode ser compreendida em suas diferentes dimensões: a ruptura com Portugal, os conflitos regionais, a organização do Império e os limites impostos à cidadania. Cartas, documentos parlamentares e a Constituição mostram um processo marcado por escolhas e disputas. Conhecer essas fontes amplia o significado do Sete de Setembro e permite reconhecer tanto a conquista da soberania quanto as liberdades que continuaram por conquistar.
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