Mais do que um feriado, o dia representa um convite coletivo para reconhecer as bênçãos recebidas, fortalecer vínculos e exercer a solidariedade — valores universais que ultrapassam fronteiras culturais.
Origem histórica
A tradição remonta a 1621, quando os peregrinos ingleses organizaram um grande banquete para agradecer pela colheita farta após anos de dificuldades no Novo Mundo. O momento histórico ficou marcado pela presença dos povos nativos, reconhecidos por terem auxiliado na sobrevivência dos colonos, ensinando técnicas agrícolas e oferecendo apoio essencial.
Somente em 1863, o presidente Abraham Lincoln declarou oficialmente o Dia de Ação de Graças como data nacional de agradecimento nos Estados Unidos. Em 1941, o Congresso americano fixou sua celebração na quarta quinta-feira de novembro, como ocorre até hoje.
Significado religioso e cultural
Apesar da forte raiz cristã, o Dia de Ação de Graças ganhou ao longo do tempo um caráter ecumênico e cultural. Ele simboliza:
Gratidão pela vida e pelas conquistas;
União familiar, com refeições que reúnem várias gerações;
Solidariedade, com ações voltadas para famílias carentes;
Reconciliação e fortalecimento de laços;
Esperança renovada para um novo ciclo.
Símbolos como o peru assado, a torta de abóbora e os tradicionais desfiles — como o famoso “Macy’s Parade”, em Nova York — completam o imaginário da data.
A celebração no Brasil
O Dia de Ação de Graças foi instituído oficialmente no Brasil em 1949, por iniciativa do diplomata Joaquim Nabuco, que conheceu a celebração nos Estados Unidos. Embora não seja feriado nacional, igrejas católicas, comunidades evangélicas, escolas e instituições filantrópicas mantêm viva a prática da gratidão, com cultos, missas, campanhas de doação e momentos de reflexão.
Nos últimos anos, o tema ganhou maior destaque também por conta da popularização da Black Friday, que ocorre na mesma semana e reforça a visibilidade internacional da data.
ENTREVISTA: A visão da Igreja Católica
Com o Pe. Rodrigo Eduardo Hillesheim – Diocese de Santa Cruz do Sul
O sacerdote destaca a centralidade da virtude da gratidão para a fé cristã e explica o sentido espiritual da celebração.
“A gratidão é a linguagem do Céu”
Para o padre, o Dia de Ação de Graças reforça algo que já está enraizado na vivência católica: tudo é dom de Deus.
“A gratidão é uma virtude que transforma a maneira como vivemos. Ela nos lembra da nossa dependência de Deus e nos chama a reconhecer suas bênçãos diariamente.”
Ele também destaca a relação direta entre a data e a Eucaristia.
“A palavra Eucaristia significa ‘ação de graças’. A Missa é o ápice da gratidão cristã.”
Celebração especial na comunidade
A paróquia celebrará uma missa especial às 18h15min, na Catedral, e está incentivando a doação de 1 kg de alimento não perecível ao longo do dia. Os mantimentos serão destinados ao Centro Caritativo da Paróquia e à COPAME.
O papel da família
Segundo o Pe. Rodrigo, a mesa de refeição tem um profundo valor espiritual:
“A mesa é o primeiro altar da partilha. É nela que se ensina a gratidão às novas gerações.”
O sacerdote também observa maior movimento de solidariedade neste período, que antecede o Advento e o Natal.
“A gratidão verdadeira sempre transborda em caridade.”
Ele avalia como positivo o crescimento da celebração no Brasil, desde que o foco permaneça no essencial:
“É uma oportunidade de catequese. Podemos transformar uma tradição importada em um momento de aprofundamento espiritual.”
ENTREVISTA: A visão da Igreja Evangélica
Com o Pastor Jair Luiz Holzschuh – IECLB, Venâncio Aires
Na perspectiva luterana, a gratidão é vivenciada principalmente nos tradicionais Cultos de Ação de Graças pela Colheita, fortemente ligados ao reconhecimento do sustento oferecido por Deus.
“Ser grato faz parte da identidade cristã”
O pastor explica que, biblicamente, a fundamentação está em Deuteronômio 26.1-11, quando os israelitas ofereceram a Deus as primeiras colheitas.
“Não é possível ser cristão e não exercer o cuidado com o próximo. A gratidão é resposta ao amor gratuito de Deus em Cristo.”
Enfrentando dificuldades com fé e esperança
Para o pastor, a gratidão não ignora os momentos de dor.
“Mesmo nas dificuldades temos motivos para agradecer, porque Deus age conosco em amor e não desiste de nos socorrer.”
Ação comunitária e solidariedade
Na IECLB, as ofertas de Ação de Graças pela Colheita são leiloadas, e o valor é destinado a entidades como o Asilo Pella Bethânia, em Taquari.
“Os vínculos familiares e comunitários se fortalecem na celebração, pois a Igreja intermedia o diálogo entre Deus e as pessoas.”
Reflexão sobre o consumo
O pastor alerta para o risco de a data ser reduzida ao apelo comercial.
“Cuidemos para que não se torne apenas mais uma ocasião de consumo. A vida é dádiva de Deus, e quem não é grato não reconhece esse presente.”
Ele também deixa um conselho para quem enfrenta dificuldades:
“Faça uma lista das bênçãos. Você encontrará muito mais motivos para agradecer do que para murmurar.”
Um convite à reflexão
Em uma sociedade acelerada, marcada por pressões e consumo, o Dia de Ação de Graças surge como um respiro necessário — um chamado à simplicidade, ao reconhecimento e à fé.
A mensagem comum das duas entrevistas aponta para a mesma direção:
A gratidão transforma, cura e aproxima as pessoas.
Como lembrou o padre:
“Em tudo dai graças.” (1 Ts 5,18)
E como concluiu o pastor:
“Ser grato é uma decisão e uma convicção de fé.”
Neste dia — e em todos os outros — que possamos cultivar um coração agradecido, fortalecer vínculos e abrir espaço para a esperança.
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