No Rio Grande do Sul, onde a agricultura desempenha papel fundamental na economia e na geração de renda para milhares de famílias, a discussão ambiental está diretamente ligada à sustentabilidade das propriedades rurais. Preservar a água, o solo, a vegetação nativa e a biodiversidade significa também garantir condições para a continuidade da produção agrícola e da segurança alimentar das futuras gerações.
Nos últimos anos, os gaúchos sentiram de forma intensa os efeitos das mudanças climáticas. Estiagens prolongadas, enchentes históricas, temporais e eventos extremos passaram a fazer parte da realidade de produtores rurais e comunidades urbanas, reforçando a necessidade de ampliar ações voltadas à conservação ambiental e à adaptação dos sistemas produtivos.
Para a extensionista e coordenadora de projetos ambientais da Emater/RS-Ascar, Thaís Michel, a preservação ambiental deve ser compreendida como um investimento estratégico para o futuro.
“A conservação dos recursos naturais está diretamente associada à sustentabilidade dos sistemas produtivos. Solos protegidos, recursos hídricos preservados, vegetação nativa conservada e práticas de manejo adequadas contribuem para a manutenção da produtividade, a redução de riscos ambientais e a adaptação às mudanças climáticas.”
Produzir e preservar caminham juntos
Na região do Vale do Rio Pardo, onde a agricultura familiar e a produção de tabaco possuem grande relevância econômica e social, a preservação ambiental vem se consolidando como um dos pilares da atividade rural.
A fumicultura moderna desenvolvida no Sul do Brasil é baseada predominantemente em pequenas propriedades familiares, onde a produção convive com áreas de preservação permanente, reservas legais, proteção de nascentes e práticas conservacionistas.
A conservação do solo por meio de curvas de nível, cobertura vegetal, manejo adequado das lavouras e proteção das fontes de água tornou-se uma necessidade cada vez maior diante dos desafios climáticos enfrentados pelos agricultores.
O ambientalista gaúcho José Lutzenberger, referência mundial na defesa do meio ambiente, já alertava sobre a importância da relação equilibrada entre produção e natureza.
“A natureza não faz nada em vão.”
A frase permanece atual em um cenário onde a produtividade agrícola depende diretamente da qualidade do solo, da disponibilidade de água e da manutenção dos ecossistemas naturais.
Agricultura familiar e sustentabilidade
A Emater/RS-Ascar desenvolve diversos projetos voltados à conservação e à recuperação ambiental no meio rural gaúcho. Entre as iniciativas destacam-se programas de proteção de nascentes, recuperação de áreas degradadas, restauração ecológica de campos nativos e Áreas de Preservação Permanente (APPs), além do incentivo a sistemas produtivos sustentáveis e de baixa emissão de carbono.
Projetos como a restauração ecológica na Área de Proteção Ambiental (APA) do Ibirapuitã, o Projeto ABC+ e o Programa de Recuperação Socioprodutiva, Ambiental e Incremento da Resiliência Climática da Agricultura Familiar Gaúcha buscam fortalecer a capacidade das propriedades rurais de enfrentar eventos climáticos extremos e garantir a produção de forma sustentável.
O pensador e líder indígena Ailton Krenak lembra que a humanidade não está separada da natureza.
“Não estamos defendendo a natureza. Nós somos a natureza.”
A reflexão reforça a ideia de que a preservação ambiental não é apenas uma responsabilidade dos órgãos públicos ou das entidades ambientais, mas um compromisso coletivo que envolve produtores rurais, empresas, governos e consumidores.
O futuro depende das escolhas do presente
Mais do que uma celebração, a Semana do Meio Ambiente representa um convite à ação. A proteção das nascentes, o uso racional da água, o manejo adequado do solo, a recuperação de áreas degradadas e a conservação da vegetação nativa são medidas que geram benefícios ambientais, econômicos e sociais.
No campo, preservar significa garantir produtividade. Nas cidades, significa assegurar qualidade de vida, abastecimento de água e equilíbrio climático.
O geógrafo brasileiro Milton Santos defendia que o desenvolvimento deve estar associado ao bem-estar coletivo e à responsabilidade social.
“O meio ambiente é um patrimônio coletivo e sua preservação interessa a todos.”
Em um Estado que recentemente enfrentou uma das maiores tragédias climáticas de sua história, a mensagem da Semana do Meio Ambiente torna-se ainda mais relevante: preservar os recursos naturais não é impedir o desenvolvimento, mas criar condições para que ele seja duradouro, equilibrado e capaz de beneficiar as gerações presentes e futuras.
Afinal, cuidar da água, do solo e da biodiversidade é também cuidar da agricultura, da economia e da própria vida.
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