Reinaldo que reside na localidade de Capela dos Cunha, participa do encontro desde a primeira edição, há mais de duas décadas. Neste ano, saiu de casa às 6h da manhã com um grupo de 11 pessoas em direção ao evento. “Eu venho há 25 anos, desde o primeiro encontro. Sempre trago algo para trocar e levo também. Embora eu não plante mais devido à minha idade, eu levo para meus amigos e familiares que me pedem. Aqui a gente encontra amigos de muitos anos”, contou. Mesmo sem mais cultivar, segue ativo na troca e na circulação das sementes.
Ele também relatou que, na semana anterior, participou de um encontro em Ibarama, onde levou sementes para o sobrinho, que reside me Alto Paredão. “Um evento desses traz muita força para eu continuar a minha vida. Faz 50 anos que estou na Pastoral da Terra. Isso me dá uma força que você nem imagina. Me mantém vivo. Enquanto eu puder ir, eu vou”, afirmou.
Também de Passo do Sobrado, moradora da localidade de Passo Mangueira, Elai participa do encontro desde 2019. Aprendeu a técnica de guardar sementes com os pais e os avós, e hoje cultiva e comercializa variedades crioulas para outros municípios. “Em 2019, fui em um encontro em Vale do Sol e me interessei em cultivar as sementes dos meus antepassados: milho de cinco variedades, abóbora de dez variedades, açaí, pitaias, favas, amendoim, porongo cuia, porongo cobra e porongo comestível. Eu sempre levo e onde passo, pego outras variedades. Essas sementes são crioulas e não transgênicas. Isso eu me orgulho muito”, explicou.
Segundo ela, suas sementes já chegaram a outros estados. “Na Expoagro, o pessoal de Santiago entrou em contato comigo para eu mandar sementes de porongo cuia. Também já enviei sementes para Santa Catarina. Participei da Expoagro, da Fenachim e de vários outros eventos. Muita gente pega meu contato e pede sementes, que eu envio pelo correio”.
O encontro foi promovido pela Diocese de Santa Cruz do Sul e contou com a presença do bispo diocesano Dom Itacir Brassiani, do bispo emérito Dom Aloísio Alberto Dilli, padres da diocese e autoridades locais. A programação começou às 8h com a acolhida e um momento de espiritualidade conduzido por Dom Itacir, que em sua fala reforçou a importância do papel dos agricultores e agricultoras como protagonistas da preservação da vida e da esperança. “Este é o encontro diocesano de sementes crioulas, mas estamos aqui hoje não somente pelas sementes. Estamos aqui por vocês, agricultoras e agricultores, apoiadores e apoiadoras, para espalhar sementes de solidariedade e de esperança. A troca de sementes garante um pouco da autonomia de quem vive e trabalha na terra. Vocês, que são guardiões dessas sementes, recebem de Deus a bênção pela coragem, resistência e persistência que demonstram”, afirmou.
Durante a manhã, foi realizado um painel sobre sementes crioulas e agroecologia, com relatos de experiências dos próprios agricultores, seguido de um momento cultural com Antônio Gringo, Regina e Bruna, integrantes do grupo Ave Cantadeira. O encontro também marcou a celebração dos 50 anos da Comissão Pastoral da Terra (CPT). À tarde, os participantes participaram da tradicional troca de sementes crioulas, ramas e mudas. Além das sementes compartilhadas gratuitamente entre os agricultores, também houve espaço para comercialização de sementes crioulas. O encerramento aconteceu por volta das 15h30, após um dia inteiro de trocas, encontros e reafirmação do compromisso coletivo com a soberania alimentar e a preservação da agrobiodiversidade.
O evento contou com o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Escola de jovens Rurais (EJR), Paróquia São Gabriel Arcanjo, Escola São Miguel, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cruzeiro do Sul, Cáritas, Projeto Missão Sementes de Solidariedade, Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Associação em Agroecologia do Vale do Rio Pardo (AAVRP), Articulação de Agroecologia do Vale do Taquari (AAVT), Prefeitura Municipal de Cruzeiro do Sul e a Emater/Ascar.
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