Ilázio Queiroz Lopes: uma vida dedicada ao campo, à família e às tradições gaúchas
Homenageado em vida como patrono da 30ª Semana Farroupilha de Passo do Sobrado, Lazinho relembra a infância humilde, as dificuldades enfrentadas, a criação dos filhos e sua trajetória no movimento tradicionalista

A homenagem recebida por Ilázio Queiroz Lopes durante a 30ª Semana Farroupilha de Passo do Sobrado representa o reconhecimento a uma vida marcada pelo trabalho, pela simplicidade e pelo compromisso com as tradições gaúchas. Aos 66 anos, o homem conhecido carinhosamente como Lazinho mantém no cotidiano os costumes aprendidos desde a infância e defende que ser gaúcho vai muito além de vestir a pilcha durante os festejos de setembro.
Ilázio foi homenageado em vida como patrono dos festejos de 2026. Ao lado dele, Zaira Maria Bastos da Rosa recebeu o reconhecimento in memoriam. A distinção foi entregue durante a sessão solene realizada na noite de 14 de setembro, no CTG Gaudérios da Querência, em Passo da Mangueira. A solenidade também homenageou os jovens tradicionalistas Luana Jamille Kroth e Augusto Ismael Rauber Jänisch.
A escolha dos patronos buscou valorizar pessoas que contribuíram para a preservação dos costumes e para o fortalecimento do tradicionalismo no município. A sessão integrou a programação da Semana Farroupilha, realizada entre os dias 13 e 20 de setembro, com atividades culturais, educativas, religiosas e campeiras.
Para Lazinho, receber a homenagem foi motivo de emoção e agradecimento.
— Para mim, é uma honra muito grande ser escolhido. Só tenho a agradecer a todos os amigos que me colocaram nesse caminho, especialmente o pessoal da Cavalgada da Integração e da Cavalgada Farroupilha. Espero que todos os que forem homenageados daqui para frente tenham esse mesmo sentimento pelas tradições gaúchas — declarou.
Infância em uma casa de barro
Ilázio nasceu em Passo da Mangueira, quando a localidade ainda pertencia ao município de Rio Pardo. Sua primeira moradia era uma casa humilde, construída de barro e pau a pique. Foi nesse ambiente rural que aprendeu valores que carregaria ao longo da vida: trabalho, coragem, respeito, amizade e união familiar.
O próprio nome guarda uma característica da história da família. Seus pais decidiram que os filhos teriam nomes iniciados com a letra “I”. Assim foram chamados Iraci, Inês, Ilceu, Ilda e Ilázio.
O pai, José da Silveira Lopes, também nasceu em Passo da Mangueira. Agricultor e trabalhador rural, exerceu diferentes atividades para sustentar a família. Foi peão, cultivou fumo, trabalhou no corte de arroz e realizou o transporte de produtos. Faleceu em decorrência de um câncer, aos 47 anos.
Com a morte do marido, Aldenira Rita Lopes ficou viúva ainda jovem e precisou criar os filhos pequenos. Trabalhou na lavoura de fumo e cuidou da casa, contando com a colaboração das crianças. Ilázio aprendeu cedo que todos precisavam ajudar para garantir o sustento da família.
Aldenira viveu até os 80 anos. A força demonstrada por ela nos períodos mais difíceis permanece entre as principais referências de Lazinho.
Trabalho e responsabilidades desde menino
A infância foi dividida entre o trabalho na lavoura, a escola e as brincadeiras. Como acontecia com muitas crianças do interior naquela época, os estudos nem sempre podiam ser colocados em primeiro lugar. Quando havia serviço no campo, era preciso ajudar a família.
A escola funcionava dentro de uma igreja e tinha Dona Otília como professora. Ela também era madrinha de Ilázio. Entre as lembranças daquele período está a estratégia utilizada por Lazinho para escapar das contas passadas pela educadora: ele se oferecia para sair ao campo e catar formigas.
Apesar das dificuldades, havia espaço para brincadeiras com os irmãos e amigos. Sérgio e Silésio estavam entre seus companheiros de infância. Uma das travessuras ocorreu quando os meninos colocaram urtiga no rabo de um cavalo. O animal disparou e eles precisaram buscar proteção junto a um butiazeiro.
Entre os irmãos, outra história atravessou as décadas. Certo dia, Inês preparou uma sopa e Ilceu, com muita fome, comeu tudo. Ilázio ficou indignado e saiu atrás do irmão. Na tentativa de fugir pela janela, Ilceu passou mal e quase morreu de congestão. A ajuda do tio Pedro e o transporte providenciado por Erno até o hospital foram fundamentais. O susto acabou se transformando em uma das histórias familiares contadas até hoje.
Conhecimentos aprendidos na lida campeira
Foi no trabalho diário que Lazinho adquiriu conhecimentos que dificilmente seriam encontrados nos livros. Aprendeu a domar cavalos, construir cercas, tosar ovelhas, utilizar ferramentas e desempenhar diferentes tarefas da vida rural. Também trabalhou como esquilador.
Sua identificação com a cultura gaúcha nasceu dessa experiência concreta. Para ele, ser tradicionalista não é apenas participar de eventos, mas conhecer o campo, respeitar os ensinamentos dos mais velhos e preservar uma maneira de viver.
— As tradições do nosso Rio Grande são muito bonitas. É preciso conhecê-las e entendê-las. O gaúcho não pode querer ser aquilo que não é. Ele precisa ser autêntico e saber o que está fazendo dentro do movimento — afirmou.
Lazinho observa que muitas pessoas utilizam a indumentária somente durante a Semana Farroupilha. Com ele ocorre de maneira diferente. Bombacha e botas fazem parte do cotidiano.
— Eu sempre andei pilchado e sempre gostei disso. Às vezes até reclamo quando preciso colocar outra roupa que não seja bombacha e bota — contou.
Família construída com trabalho e dedicação
A vida de Ilázio também foi marcada por desafios familiares. Após uma separação, ele assumiu os cuidados dos dois filhos ainda pequenos. Suzi tinha apenas um ano e oito meses, enquanto Tiago estava com três anos.
Diante da responsabilidade, precisou trabalhar e reorganizar a vida para acompanhar o crescimento das crianças. A experiência reforçou o valor que sempre atribuiu à família.
Mais tarde, reencontrou Marina Shimuneck, que conhecia desde a infância. Os dois haviam seguido caminhos diferentes e formado suas famílias. Marina era mãe de Diogo, enquanto Ilázio era pai de Tiago e Suzi.
O reencontro ocorreu na venda do Seu Ovídeo. A aproximação ganhou um novo significado durante um baile de CTG. Em 20 de setembro de 1990, os dois dançaram juntos e decidiram unir suas vidas. Passaram, então, a cuidar dos três filhos.
Ilázio manifesta gratidão pela forma como Marina acolheu Tiago e Suzi e ajudou a criá-los. Atualmente, o casal vive em uma chácara na localidade de Capela dos Cunha, mantendo a proximidade com o campo.
A família cresceu. Suziane Lopes da Silva casou-se com Celso Luís dos Santos da Silva e teve Nicolas e Gabrielly. Gabrielly é mãe de Isis Maria, bisneta de Ilázio. Tiago Atanagildo Lersch Lopes casou-se com Ana Lopes do Nascimento e é pai de Antônio. Diogo Fabiano Bandeira, casado com Rosângela Alpes, é pai de William.
Memórias de um tempo diferente
As lembranças de Ilázio ajudam a compreender como viviam as famílias do interior em outras épocas. Seu avô, Atanagildo, tornou-se quitandeiro e seguia até Rio Pardo para vender os produtos cultivados na colônia. As viagens eram feitas de aranha, e os ovos precisavam ser cuidadosamente envolvidos em palha para não quebrarem durante o percurso.
Lazinho também recorda uma época em que poucas famílias possuíam rádio. Um vizinho, conhecido como Seu Tonico, comprou um aparelho e, aos domingos, os moradores reuniam-se para ouvir o programa Rodeio Coringa.
Após a morte de Dona Nicota, a família entrou em um período de luto de um ano e deixou de participar de festas. Seu Tonico emprestou-lhes um rádio para que tivessem algum entretenimento em casa. Quando o período estava próximo do fim, outro familiar faleceu, prolongando o luto. O aparelho, semelhante a uma caixa de abelhas, permaneceu com a família por aproximadamente dois anos.
As festas eram animadas com gaita e pandeiro. Entre as comidas servidas estava o tradicional bolo frito. No Natal, a família seguia de carroça até a igreja para participar da Missa do Galo. Nos aniversários, grupos de amigos faziam as chamadas “surpresas”, chegando às casas sem aviso para festejar com o aniversariante.
São recordações de um período no qual havia poucas condições materiais, mas a convivência comunitária aproximava vizinhos, amigos e familiares.
Participação no movimento tradicionalista
Ilázio acompanhou desde os primeiros anos a trajetória do CTG Gaudérios da Querência, entidade com mais de quatro décadas de atuação na preservação cultural e na integração das famílias de Passo do Sobrado e região.
— Faço parte desde quando o CTG começou. Fui praticamente um dos fundadores — recordou.
Desde 2015, também atua na Cavalgada da Integração. Ao longo dessa caminhada, assumiu diferentes responsabilidades, exercendo por várias vezes as funções de coordenador e vice-coordenador.
— Entrei na cavalgada e logo comecei a ajudar na organização. Estou sempre presente, trabalhando e colaborando. Já fui coordenador, fui vice várias vezes e hoje sou vice novamente — explicou.
Uma das lembranças mais marcantes de sua trajetória tradicionalista é a participação em um grande rodeio que reuniu aproximadamente 150 ginetes, distribuídos em quatro palanques. A dimensão do evento e a demonstração de habilidade dos participantes permanecem guardadas em sua memória.
Além de participar de rodeios, bailes, cavalgadas e atividades tradicionalistas, Ilázio procura transmitir seus conhecimentos às gerações mais novas. Ensinou os netos a declamar e compartilha com a família histórias sobre o campo, os costumes antigos e a cultura regional.
Uma homenagem recebida com gratidão
Ao ser escolhido patrono da 30ª Semana Farroupilha, Lazinho viu reconhecida uma trajetória construída longe dos holofotes, por meio da participação comunitária e da dedicação cotidiana ao tradicionalismo.
Sua história reúne experiências comuns a muitas famílias do interior: a casa humilde, o trabalho iniciado ainda na infância, as perdas familiares, a curta passagem pela escola, o esforço para criar os filhos e a preservação dos conhecimentos aprendidos no campo.
Mais do que relembrar os acontecimentos relacionados à Revolução Farroupilha, os festejos realizados em Passo do Sobrado procuram preservar hábitos, conhecimentos e valores transmitidos entre gerações. Em 2026, a programação chegou à 30ª edição, reunindo escolas, entidades, cavalgadas, grupos tradicionalistas e famílias do município.
Ao deixar uma mensagem à comunidade, Ilázio destacou a importância da autenticidade, do respeito e da continuidade cultural.
— Todos devem cultivar as tradições, porque elas são muito bonitas. Mas é preciso conhecer e respeitar o que elas representam. Quero que as pessoas continuem participando e que aqueles que forem homenageados no futuro tenham o mesmo sentimento que tenho pelas tradições gaúchas.
Lazinho também resume em poucas palavras a maneira como deseja ser lembrado: como alguém que cultivou as tradições, respeitou as pessoas, ajudou quem precisava e conduziu a vida com honestidade.
Esse talvez seja o principal significado da homenagem recebida. Ilázio Queiroz Lopes não representa apenas sua própria trajetória, mas também homens e mulheres do interior que construíram suas vidas com as mãos marcadas pelo trabalho e mantiveram a cultura gaúcha viva dentro de casa, nas comunidades e junto às novas gerações.
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