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Dia do Gaúcho celebra a história, a cultura e a identidade do Rio Grande do Sul

Celebrado em 20 de setembro, feriado estadual recorda o início da Revolução Farroupilha, conflito que se estendeu por quase dez anos e deixou marcas profundas na formação histórica e cultural dos gaúchos

O Rio Grande do Sul celebra neste domingo, 20 de setembro de 2026, uma das datas mais representativas de sua história. Conhecido como Dia do Gaúcho, o 20 de Setembro relembra o início da Revolução Farroupilha, movimento que, em 1835, colocou grupos da então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul em confronto com o governo do Império do Brasil.

Passados 191 anos, a data ultrapassou a lembrança dos acontecimentos militares. Tornou-se uma celebração da identidade gaúcha, marcada pelas cavalgadas, pelo acendimento da Chama Crioula, pelos desfiles, pela música, pelas danças, pela culinária e pelos encontros promovidos em CTGs, piquetes, escolas e comunidades.

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Ao mesmo tempo, estudos históricos mais recentes ampliaram a compreensão sobre a Revolução Farroupilha. Além dos líderes tradicionalmente lembrados, as pesquisas procuram dar visibilidade à participação de pessoas negras, indígenas, mulheres, trabalhadores rurais e outros grupos que também viveram o conflito e sofreram suas consequências.

O que aconteceu em 20 de setembro de 1835

O marco inicial da revolta ocorreu entre a noite de 19 e a manhã de 20 de setembro de 1835. Após um confronto nas proximidades da Ponte da Azenha, as forças rebeldes entraram em Porto Alegre. O então presidente da província, Antônio Rodrigues Fernandes Braga, deixou a capital em direção a Rio Grande.

Naquele primeiro momento, o movimento não apresentava uma posição separatista unânime. Parte dos revoltosos buscava a substituição do presidente provincial e maior autonomia para defender os interesses políticos e econômicos da região.

Com o prolongamento dos confrontos e o endurecimento das posições, o movimento assumiu caráter republicano e separatista entre suas principais lideranças.

Insatisfação política e econômica alimentou a revolta

A Revolução Farroupilha aconteceu durante o período regencial, fase de grande instabilidade política vivida pelo Brasil entre a abdicação de Dom Pedro I, em 1831, e a antecipação da maioridade de Dom Pedro II, em 1840.

No Rio Grande do Sul, estancieiros, militares e integrantes da elite regional reclamavam da centralização do poder pelo governo imperial. Uma das principais insatisfações estava relacionada à economia do charque, produto fundamental para a província.

Os produtores locais alegavam enfrentar uma concorrência desigual com o charque importado do Uruguai e da Argentina, que chegava ao mercado brasileiro com preços mais baixos. Também havia críticas à carga tributária, à pouca influência dos representantes locais nas decisões do Império e à nomeação de dirigentes provinciais pelo governo central.

Apesar desses fatores econômicos, a guerra não pode ser explicada por uma única causa. Disputas políticas, interesses regionais, rivalidades pessoais, defesa de maior autonomia e circulação de ideias republicanas ajudaram a construir o cenário que levou ao conflito.

República Rio-Grandense

Um dos acontecimentos decisivos ocorreu em 10 de setembro de 1836, quando as forças comandadas por Antônio de Sousa Neto derrotaram tropas imperiais na Batalha do Seival, na região de Bagé.

No dia seguinte, Sousa Neto proclamou a República Rio-Grandense, também chamada de República de Piratini. A separação do Império foi posteriormente confirmada pelas lideranças farroupilhas.

Bento Gonçalves da Silva tornou-se o primeiro presidente da República Rio-Grandense. Entre outros nomes ligados ao movimento estavam David Canabarro, Antônio de Sousa Neto, Giuseppe Garibaldi, Domingos José de Almeida, Vicente da Fontoura e Joaquim Teixeira Nunes.

O governo republicano passou por diferentes cidades ao longo da guerra, especialmente diante do avanço das tropas imperiais. Piratini, Caçapava do Sul e Alegrete estiveram entre os principais centros administrativos do período.

Revolta chegou a Santa Catarina

A guerra ultrapassou os limites do Rio Grande do Sul. Em 1839, tropas farroupilhas avançaram sobre Santa Catarina e conquistaram Laguna. Na cidade foi proclamada a República Juliana, que manteve ligação política com a República Rio-Grandense.

Foi nesse contexto que ganharam destaque Giuseppe Garibaldi e Ana Maria de Jesus Ribeiro, conhecida como Anita Garibaldi. Anita participou de episódios militares no Sul do Brasil e, mais tarde, acompanhou Garibaldi em conflitos na América do Sul e na Europa.

A República Juliana, entretanto, teve curta duração. As forças imperiais retomaram Laguna ainda em 1839.

Pessoas escravizadas lutaram na guerra

A Revolução Farroupilha ocorreu em uma sociedade marcada pela escravidão. Embora o movimento utilizasse palavras como liberdade, igualdade e humanidade, muitos de seus líderes pertenciam à elite proprietária e mantinham pessoas escravizadas.

Homens negros foram incorporados às forças farroupilhas, formando unidades que ficaram conhecidas como Lanceiros Negros. Parte deles recebeu a promessa de liberdade em troca da participação na guerra.

Um dos episódios mais dolorosos do conflito aconteceu em 14 de novembro de 1844, no Cerro de Porongos, na atual região de Pinheiro Machado. Tropas imperiais atacaram o acampamento farroupilha, atingindo principalmente os Lanceiros Negros.

As circunstâncias do episódio ainda são discutidas por historiadores. Há divergências sobre a existência de um acordo prévio para desarmar ou eliminar os combatentes negros antes da conclusão da paz. Por isso, o acontecimento é lembrado tanto como Batalha de Porongos quanto como Massacre ou Traição de Porongos.

A inclusão desse capítulo nas comemorações ajuda a apresentar uma visão mais ampla e crítica da guerra, reconhecendo personagens que durante muito tempo permaneceram à margem das narrativas oficiais.

Participação das mulheres

As mulheres também estiveram presentes de diferentes maneiras durante os quase dez anos de conflito. Além de Anita Garibaldi, muitas atuaram no atendimento aos feridos, na administração das propriedades, na produção de alimentos, na transmissão de informações e na manutenção das famílias enquanto os homens estavam nos campos de batalha.

Grande parte dessa participação não foi registrada nos documentos oficiais da época. Pesquisas posteriores, no entanto, demonstraram que a guerra atingiu diretamente a vida cotidiana das mulheres e que elas exerceram funções importantes tanto nos territórios controlados pelos farroupilhas quanto nas áreas mantidas pelo Império.

Como terminou a Revolução Farroupilha

Depois de anos de confrontos, o movimento perdeu força militar e econômica. Em 1842, Luís Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, assumiu o comando das forças imperiais e a presidência da província. Ele combinou operações militares com negociações para encerrar a guerra.

O acordo ficou conhecido como Paz de Ponche Verde e foi concluído em 1º de março de 1845, na região do atual município de Dom Pedrito. Os revoltosos receberam anistia e parte dos oficiais foi incorporada ao Exército Imperial. Também foram negociadas questões econômicas e militares.

Embora seja frequentemente chamado de tratado, historiadores observam que não houve o reconhecimento da República Rio-Grandense como uma nação independente. Com o acordo, o território foi reintegrado ao Império do Brasil.

A guerra deixou milhares de mortos, propriedades destruídas, prejuízos econômicos e comunidades afetadas. Por isso, a Revolução Farroupilha pode ser lembrada como símbolo de resistência, mas também precisa ser compreendida como um conflito complexo, marcado por interesses distintos, desigualdades e contradições.

De guerra regional a símbolo cultural

A valorização do 20 de Setembro como símbolo da identidade gaúcha ganhou força especialmente a partir do século XX. Em 1947, jovens liderados por João Carlos Paixão Côrtes organizaram em Porto Alegre a primeira Ronda Crioula e retiraram uma centelha do Fogo Simbólico da Pátria para representar a tradição do Rio Grande do Sul.

A iniciativa é considerada um dos marcos do tradicionalismo organizado. Nas décadas seguintes, multiplicaram-se os Centros de Tradições Gaúchas, as rondas, os desfiles e as atividades culturais.

A Semana Farroupilha foi oficializada no estado pela Lei nº 4.850, de 11 de dezembro de 1964. Atualmente, as programações costumam se estender por vários dias, com acampamentos, apresentações artísticas, atividades campeiras, palestras, oficinas, gastronomia e ações educativas.

A Constituição do Rio Grande do Sul reconhece o 20 de Setembro como Data Magna do Estado. A legislação federal também permite que a data magna definida por cada estado seja considerada feriado civil. Por isso, o Dia do Gaúcho é feriado em todo o território rio-grandense.

Festejos de 2026 homenageiam os 400 anos das Missões

Em 2026, os Festejos Farroupilhas têm como referência os 400 anos do início da experiência missioneira no território do atual Rio Grande do Sul, destacando a herança jesuítica e, principalmente, a presença e o protagonismo dos povos guaranis.

O tema amplia o olhar sobre a formação histórica do estado, mostrando que a identidade gaúcha não começou com a Revolução Farroupilha. Ela é resultado do encontro — muitas vezes marcado por conflitos e violência — entre povos indígenas, africanos, portugueses, espanhóis, imigrantes europeus e diferentes comunidades que participaram da formação social e cultural do Rio Grande do Sul.

A programação de 2026 também reforça a importância das Missões como patrimônio histórico, arqueológico e cultural, valorizando a contribuição guarani para a agricultura, a alimentação, a linguagem, a música, os conhecimentos sobre o território e diversos costumes presentes até hoje.

Mais do que pilcha, churrasco e chimarrão

As celebrações do Dia do Gaúcho são reconhecidas pela pilcha, pelo churrasco, pelo chimarrão, pelas danças, pela música regional e pelas atividades campeiras. No entanto, a cultura do Rio Grande do Sul é mais ampla e diversa.

Ela está presente nas comunidades rurais e urbanas, nas manifestações indígenas e afro-gaúchas, nas tradições dos imigrantes, no trabalho do campo, na literatura, no artesanato, na culinária e nas diferentes formas de falar, cantar e viver encontradas nas regiões do estado.

Celebrar o 20 de Setembro também significa estudar a história, reconhecer suas contradições e compreender que a identidade gaúcha continua em construção.

Em 2026, quando o início da Revolução Farroupilha completa 191 anos, o Dia do Gaúcho permanece como um momento de encontro e preservação cultural. Mais do que recordar batalhas e líderes, a data convida a refletir sobre todas as pessoas que participaram da formação do Rio Grande do Sul e sobre os valores que devem orientar seu futuro.

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Tipo de conteúdo Notícia
Fonte/Origem Apuração/Redação
Autor Gazeta Popular
Atualização 18/09/2026 às 17:20
Categoria Notícias
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O que aconteceu?Dia do Gaúcho celebra a história, a cultura e a identidade do Rio Grande do Sul
Onde?Farroupilha
Fonte da informaçãoRedação Gazeta Popular

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Última atualização18/09/2026 às 17:20

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