Críticas da indústria à política monetária
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) criticou duramente a decisão, afirmando que a política monetária atual tem “freado o crescimento do país”. Para o presidente da entidade, Ricardo Alban, a manutenção dos juros em nível tão elevado prejudica a economia e ameaça o mercado de trabalho.
“A taxa de juros atual traz custos desnecessários, ameaçando o bem-estar da população. O Brasil segue com a segunda maior taxa de juros real do mundo, penalizando duramente o setor produtivo”, afirmou Alban.
Ele defendeu que o Banco Central reduza os juros na próxima reunião, prevista para 10 de dezembro, destacando que o país “desperdiça mais uma oportunidade” de ajustar a Selic sem pressionar o câmbio ou a inflação.
Juros altos travam crédito e investimentos
Segundo levantamento da CNI, 80% das empresas industriais apontam a Selic elevada como o principal obstáculo ao crédito de curto prazo, enquanto 71% consideram o mesmo para financiamentos de longo prazo.
Dados do Banco Central mostram que, nas concessões de crédito com recursos livres, a taxa média para empresas subiu de 20,6% ao ano (set/2024) para 24,5% ao ano (set/2025).
O presidente do Sindicato dos Economistas de São Paulo, Carlos Eduardo Oliveira Jr., explica que o encarecimento do crédito impacta diretamente a capacidade produtiva:
“Com essas taxas, o custo de capital de giro e investimento sobe, inviabilizando modernização e expansão. Pequenas indústrias sofrem ainda mais, com aumento dos custos operacionais e redução das margens de lucro.”
Além dos juros, o aumento recente do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) tem agravado a situação. Quase metade das empresas industriais reduziu ou desistiu de contratar crédito após o reajuste das alíquotas.
Indústria da transformação e construção são as mais afetadas
No 3º trimestre de 2025, 27% dos empresários da Indústria da Transformação e 35,9% da Construção apontaram os juros altos como o maior entrave à atividade.
O gerente de Análise Econômica da CNI, Marcelo Azevedo, alerta que a retração no crédito afeta não só a produção, mas também a inovação e a competitividade.
“A indústria perde capacidade de investir em produtividade e inovação. Isso reduz a competitividade tanto no mercado interno quanto nas exportações.”
Selic: maior taxa em quase 20 anos
Com a manutenção em 15%, a Selic atinge o maior nível desde 2006. Considerando a inflação esperada para os próximos 12 meses (4,06%), a taxa real chega a 10,5% ao ano — cerca de 5,5 pontos acima da taxa neutra estimada pelo Banco Central (5%).
Sustentabilidade e a visão da CNI
O diretor de Economia da CNI, Mário Sérgio Telles, reforça que é preciso preservar a atividade econômica, que tem sofrido com a escalada dos juros:
“Iniciar a redução da Selic não significa abandonar a política monetária responsável. Mesmo com cortes, o país ainda manteria juros reais elevados, mas permitiria a retomada dos investimentos e da geração de empregos.”
Redução dos juros impulsionaria investimentos
Estudo da CNI indica que, se a Selic fosse reduzida para 11,9% ao ano, 77% das empresas industriais aumentariam seus investimentos nos próximos dois anos — índice semelhante entre pequenos, médios e grandes negócios.
Inflação em queda reforça críticas à manutenção da Selic
Os dados mais recentes do IBGE mostram tendência de queda da inflação, com o IPCA acumulado em 12 meses recuando de 5,5% (abril) para 5,2% (setembro).
Segundo o Relatório Focus, as projeções seguem em queda: 4,5% (2025), 4,2% (2026), 3,8% (2027) e 3,5% (2028). Para a CNI, o cenário inflacionário atual não justifica a manutenção da Selic no nível mais alto em quase duas décadas.
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