A celebração do Dia do Colono e do Motorista, realizada em 25 de julho, tornou-se uma das tradições mais representativas do Vale do Rio Pardo. Missas, cultos, desfiles de tratores e caminhões, bênçãos de veículos, almoços comunitários, jogos e bailes fazem parte das programações organizadas em diferentes municípios da região.
A comemoração regional não nasceu de um único evento ou em uma única cidade. Ela foi sendo construída ao longo das décadas nas comunidades do interior, acompanhando a formação das colônias agrícolas e a evolução dos meios utilizados para transportar a produção rural.
A colonização no Vale do Rio Pardo
A origem dessa tradição está diretamente ligada à formação das pequenas propriedades rurais. Embora o Dia do Colono faça referência à chegada dos primeiros imigrantes alemães a São Leopoldo, em 25 de julho de 1824, a colonização alemã no Vale do Rio Pardo começou algumas décadas depois.
Em 19 de dezembro de 1849, os primeiros imigrantes alemães chegaram à recém-criada Colônia de Santa Cruz. Segundo registros do Município de Santa Cruz do Sul, o primeiro grupo era formado por 12 pessoas, que ocuparam lotes na região conhecida como Picada Santa Cruz, atualmente Linha Santa Cruz.
A partir daquele núcleo, novas famílias foram se estabelecendo em diferentes pontos do território. Surgiram linhas, picadas e povoados que, posteriormente, deram origem ou contribuíram para a formação de municípios como Santa Cruz do Sul, Vera Cruz, Sinimbu, Vale do Sol, Herveiras e partes de Venâncio Aires, Rio Pardo, Passo do Sobrado e Vale Verde.
As famílias cultivavam pequenas áreas e dependiam do esforço conjunto para abrir caminhos, construir moradias, organizar escolas, igrejas, salões comunitários e sociedades de canto, tiro, ginástica e ajuda mútua.
Naquele período, o colono não representava apenas uma profissão. Era uma forma de vida marcada pelo trabalho familiar, pela produção de alimentos e pela organização comunitária.
As primeiras homenagens aos colonos
A escolha de 25 de julho para homenagear os colonos ganhou força em 1924, durante as comemorações dos 100 anos da imigração alemã no Rio Grande do Sul. A data lembrava a chegada dos primeiros imigrantes a São Leopoldo.
No Vale do Rio Pardo, onde a população rural já estava organizada em comunidades, sociedades e congregações religiosas, começaram a surgir encontros de agradecimento pelo trabalho e pelas colheitas. As celebrações reuniam elementos religiosos, culturais e sociais.
Um dos registros mais antigos encontrados na região está em Linha Boa Vista, no interior de Santa Cruz do Sul. Em 2022, a comunidade realizou a 95ª Festa do Colono e do Motorista. A sequência histórica coloca o início dessa tradição na localidade ainda na década de 1920, embora o ano exato da primeira edição precise ser confirmado nos arquivos da própria comunidade.
Isso demonstra que as homenagens aos colonos no Vale do Rio Pardo são anteriores à oficialização nacional da data. A Lei Federal nº 5.496, que instituiu oficialmente o Dia do Colono em 25 de julho, foi sancionada somente em 5 de setembro de 1968.
As festas promovidas no interior eram momentos de agradecimento, reencontro e descanso depois de meses de trabalho. Também fortaleciam as entidades locais, pois parte dos recursos obtidos era utilizada na manutenção de igrejas, escolas, sociedades e salões comunitários.
Quando o motorista passou a fazer parte da festa
Nas primeiras décadas da colonização, a produção era transportada principalmente por carroças, carretas e carros de boi. Em algumas áreas, também eram utilizados os rios e pequenas embarcações.
Com a abertura de estradas e a chegada dos primeiros caminhões, ônibus, automóveis e tratores, o motorista passou a ocupar um papel cada vez mais importante. Era ele quem levava a produção das propriedades até os armazéns, cooperativas, indústrias, estações e centros comerciais.
No Vale do Rio Pardo, essa relação tornou-se especialmente forte. O desenvolvimento da agricultura e, posteriormente, da produção e industrialização do tabaco aumentou a necessidade de transportar mercadorias entre o interior e as cidades.
O colono produzia, enquanto o motorista fazia essa produção circular. Por isso, as duas categorias passaram a ser homenageadas conjuntamente.
A celebração do Dia do Motorista em 25 de julho também possui origem religiosa. A data é dedicada, pela tradição católica brasileira, a São Cristóvão, considerado o protetor dos motoristas e viajantes.
A tradição conta que Cristóvão ajudava pessoas a atravessarem um rio, carregando-as sobre os ombros. Por essa razão, sua imagem passou a representar proteção durante as viagens.
O reconhecimento oficial veio por meio do Decreto Federal nº 63.461, de 21 de outubro de 1968, que instituiu o Dia do Motorista em 25 de julho.
É provável que muitas festas regionais tenham começado apenas como homenagem ao colono e, posteriormente, incorporado o motorista. Essa transformação acompanhou a modernização da agricultura e o crescimento do transporte rodoviário. Sem documentos completos de todas as comunidades, porém, não é possível apontar uma única localidade como responsável por realizar a primeira festa conjunta do Vale do Rio Pardo.
Religiosidade e bênção dos veículos
A participação das igrejas foi fundamental para consolidar a tradição. As comunidades católicas passaram a promover missas e bênçãos de veículos em homenagem a São Cristóvão. Nas localidades de tradição luterana, foram organizados cultos de agradecimento pelo trabalho e pela produção.
Em diversas comunidades, as celebrações tornaram-se ecumênicas, reunindo católicos e luteranos. Depois do momento religioso, colonos e motoristas participavam de desfiles com tratores, caminhões, carroças, carros de boi, automóveis e máquinas agrícolas.
A bênção dos veículos simbolizava o pedido de proteção para quem precisava enfrentar as estradas. Em seguida, a comunidade se reunia para o almoço, os jogos, as apresentações musicais e o baile.
Esse formato permanece presente nas festas realizadas atualmente no Vale do Rio Pardo.
A tradição se espalha pela região
Com o passar dos anos, as comemorações ganharam características próprias em cada localidade. Em Santa Cruz do Sul, existem festas tradicionais em Boa Vista, Linha João Alves, Linha Santa Cruz, Arroio Grande e outras comunidades.
Em Vera Cruz, localidades como Linha Ferraz e Linha Progresso preservam os desfiles, encontros comunitários e bênçãos. Sinimbu também realiza festas em comunidades como Rio Pequeno, Linha Cinco e Linha Branca.
Venâncio Aires consolidou uma das maiores programações municipais, além de festas organizadas por paróquias e comunidades do interior. Em 2025, a Paróquia Santo Antônio realizou a 37ª edição de sua Festa do Colono e do Motorista, demonstrando a continuidade dessas celebrações.
Em Passo do Sobrado, a comemoração mantém o tradicional desfile de tratores, caminhões e máquinas agrícolas, seguido pela bênção dos veículos e pela confraternização. Em 2026, a programação também passou a valorizar a memória do transporte rural com o Encontro de Carros de Boi.
Vale Verde, Rio Pardo e outras localidades também mantêm homenagens que refletem a forte presença da agricultura e do transporte na formação econômica regional.
Mesmo nos municípios mais novos, a tradição é anterior à emancipação. As festas já eram realizadas quando essas localidades ainda pertenciam administrativamente a municípios maiores. Por isso, a história da celebração está mais ligada às comunidades, paróquias e sociedades rurais do que à criação oficial dos atuais municípios.

Uma celebração que conta a história regional
No Vale do Rio Pardo, a homenagem ao colono e ao motorista representa a própria trajetória de desenvolvimento da região.
Primeiro vieram as picadas abertas em meio à vegetação, as pequenas lavouras e o transporte realizado por carroças e carros de boi. Depois chegaram as estradas, os caminhões, os tratores e as máquinas agrícolas.
As formas de produzir e transportar mudaram, mas a ligação entre o campo e a estrada permaneceu.
O agricultor produz o alimento e a matéria-prima. O motorista transporta essa produção e conecta as propriedades às cooperativas, indústrias, feiras, mercados e cidades.
Por isso, o 25 de julho tornou-se mais do que uma data comemorativa. No Vale do Rio Pardo, é um momento de preservar a memória das antigas comunidades, reconhecer o trabalho das famílias rurais e homenagear quem mantém a produção e a economia regional em movimento.
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