Em 1º lugar foi
Isadora Thiesen,
da E.E.E.M. Curupaiti, orientada pela professora Alexandra Rosa, com o texto
“A primeira lâmpada”.
A primeira lâmpada
Faz quase meio século, mas lembro-me como se fosse ontem. A oportunidade de transformar nosso tão distante sonho em realidade, a desejada eletricidade parecia finalmente possível. Reunimos alguns vizinhos e fomos até a Certaja, companhia responsável pela luz na região. Depois de muita conversa, fizeram-nos uma proposta: se reuníssemos doze famílias e pagássemos um custo, que, para nós, pequenos agricultores, não seria barato, eles instalariam a tão cobiçada luz no interior. Não demorou, e conseguimos os interessados.
Para pagar a taxa, trabalhamos incansavelmente, apontamos cada gasto e até recorremos a um empréstimo no Banco do Brasil, não foi fácil, mas realizamos o sonho. Poderíamos sim, aposentar nossos lampiões movidos a querosene. Logo os postes foram erguidos e os fios estendidos até nossa porta. Meus filhos, Marcelo e Marcos olhavam fascinados para aquele emaranhado, e minha esposa, Lurdes, tentava manter a pequena Márcia, que mal começara a andar, longe da confusão.
O combinado era ligarem a energia só no dia seguinte. Mas, ao ver a expectativa das crianças, um dos homens fez troça que, se déssemos uma galinha para a galinhada no pavilhão do antigo Vila Melos, ele ligaria na hora. Entre gargalhadas e tropeços, os guris dispararam pelo pátio até capturar a penosa, que não tinha culpa de nada, mas que viraria uma deliciosa refeição. O homem cumpriu sua promessa: girou o interruptor e a primeira lâmpada, enfim, acendeu, nos tornando, a primeira família com luz no Cerro do Chileno.
Não tardou, e um vendedor apareceu oferecendo televisores usados, ainda em preto e branco. Sabendo do desejo dos meus filhos, que sempre quiseram o aparelho, comprei um. Fomos os primeiros a tê-lo, e logo nossa sala passou a receber vizinhos e amigos para acompanhar à novela Feijão Maravilha e aos jogos de futebol. Entre discussões e risos, nossa casa se enchia de vida.
Agora, ao ver meus netos diante da TV, percebo que cada esforço valeu a pena. A luz que nós conquistamos há tanto tempo atrás não só ilumina nossas casas, mas também aquece nossas memórias e corações. Hoje, quando descanso no terreiro e deixo o olhar repousar sobre o Cerro, sinto que aquela primeira lâmpada ainda me guia, como lembrança e como bênção.
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