Na reflexão que compartilhei na última semana, abordei a questão da busca humana de Deus, da sua proximidade e transcendência, do risco da manipulação da sua imagem a serviço das ideologias. Também sublinhei que o próprio Jesus Cristo se opôs à ideologização das imagens e ideias de Deus, e pagou com a própria vida essa aventura.
Na perspectiva aberta por aquela reflexão, atrevo-me a abordar às ações de vandalismo que resultaram na destruição de imagens sacras no templo paroquial de Encantado/RS, nos primeiros dias do ano. Seriam estas ações teologicamente justificadas pela própria Bíblia? Têm razão e fundamento as reações consternadas da população católica?
“Vamos devagar com o andor, pois o santo é de barro”, diz o provérbio mineiro. Comecemos por lembrar que, de fato, imagens são imagens – de gesso, de pedra ou de resina; ou são pinturas sobre tela ou papel; elas representam algo, mas não aquilo que representam. Nenhuma imagem de santo tem em si mesma a santidade ou a divindade.
Ocorre que é próprio do ser humano transferir aos objetos ou lugares representativos as qualidades daquilo que representam. As coisas deixam de ser apenas coisas, e se tornam sacramento de algo ou de alguém: a bandeira representa o país; a fotografia lembra o vovô; a lembrança simboliza a pessoa querida. Então, a agressão às imagens é sentida como uma agressão contra a pessoa ou a entidade que ela lembra ou representa.
Avancemos um pouco mais, e lembremos daquilo que Jesus de Nazaré nos ensina, com palavras a ações, pois ele age quando fala e fala mediante suas ações: Ele é a imagem viva e insuperável de Deus; quem o vê, vê a Deus, e quem ouve o que ele diz, ouve o que Deus fala (cf. João 14,9-10); Ele é o reflexo e a expressão do ser de Deus (cf. Hebreus 1,3).
Mas Jesus não se detém aqui. Para arrepio e escândalo de ‘judeus e pagãos’, ele transfere esse caráter sagrado de imagem de Deus aos seus discípulos e a todas as pessoas, especialmente aos mais pobres e indefesos. “Todas as vezes que vocês fizeram isso a um desses irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizeram” (Mateus 25,40).
Por isso, as imagens merecem respeito por aquilo que representam, e ninguém tem o direito de agredir as pessoas que as cultuam. Mas a agressão às imagens vivas de Deus – discriminações étnicas e religiosas; violências contra mulheres; invasões e guerras contra povos frágeis; escravidões diversas – também merecem nosso veemente repúdio.
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