Escrevo com a força das vísceras porque ainda me resta um pouco da humanidade que herdei dos meus ancestrais e a levo em minhas células peregrinas; porque recuso-me a embebedar-me de indiferença; e porque me inspirei em Jesus de Nazaré, cujas entranhas se remoíam diante do sofrimento dos pobres e da violência ou descaso dos opressores.
Por mais que me quisessem convencer do contrário, o que ocorreu nos complexos da Penha e do Alemão não foi uma operação em vista da segurança da população, mas um massacre deliberado, inclusive como estratégia política. As vítimas não constam no mandato de prisão e os itens de mortos não tinham passagem pelo crime. Isso não é prova suficiente?
Até quando beberemos, com o café da manhã ou com a cerveja do fim da tarde, uma ideologia que atribui à violência e à morte o poder de promover a paz e a segurança? A morte é estéril, não gera vida, apenas reproduz a morte. Por isso, tenho pena da morte, tão desejada, idolatrada e praticada, mesmo à revelação da lei e até como estratégia política.
A desolação torna-se insuportável quando, para coroar com nosso podre o vírus da indiferença e a banalidade da violência, deputados dedicam um minuto de aplauso às mortes contabilizadas, e o governador canta hinos que dão a entender que ele agiu inspirado e sustentado por Deus. Pobre Jesus Cristo, ele mesmo vítima da pena de morte…
Que ninguém recorre às Escrituras para afirmar que os criminosos devem pagar com a própria vida a morte que provocaram. Caim matou Abel, e, mesmo numa cultura que legalizava a vingança, Deus o protege para que não seja morto (cf. Gn 4,15). E Jesus, olhando para os agentes da violência que o assassinavam para “defender a segurança de Israel”, pede ao Pai que os perdoe, porque não sabem o que fazem (cf. Lc 23,34).
Dom Itacir Brassiani msf
Bispo de Santa Cruz do Sul
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