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OPINIÃOPor Gazeta Popular

A palavra de um Deus pregado na cruz

 Estava eu em Brasília, participando de um encontro pastoral. Um grande crucifixo, fixado na parede atrás da mesa dos dirigentes, começou a chamar minha atenção. Já vi tantos outros, em muitos lugares…

Publicado em 24/07/2026 às 05:14

Negar os interesses mesquinhos ou o Evangelho?

 

Estava eu em Brasília, participando de um encontro pastoral. Um grande crucifixo, fixado na parede atrás da mesa dos dirigentes, começou a chamar minha atenção. Já vi tantos outros, em muitos lugares diferentes (em templos, parlamentos, hospitais, fóruns, casas, bancos), mas, dessa vez, não consegui silenciar alguns questionamentos insistentes:  o que aquele corpo pendurado na cruz estava fazendo ali, e o que ele estaria a nos dizer.

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Aprendi ainda criança o significado da cruz e do corpo que pende nela: é a memória visual do destino que alguns filhos da humanidade à qual pertenço impuseram ao enviado de Deus. Mas, olhando bem, na cruz não vejo uma divindade com os traços que nos ensinaram, nem um ser angélico ou um herói vitorioso, mas um corpo humano, despojado das suas vestes, machucado pela tortura, golpeado até à morte.

Senti um tremor ao lembrar que Jesus de Nazaré foi crucificado fora dos muros que protegiam os cidadãos mais importantes e em meio a dois outros condenados à mesma pena. Por isso, a cruz é muito mais que um símbolo daquilo que foi chamado de cristandade, uma civilização construída sobre os alicerces da guerra, da imposição da fé, da meritocracia, das cruzadas, do poder dos mais fortes, da bandeira dos vencedores.

E a pergunta dava voltas na minha cabeça: O que a cruz faz e diz nessa assembleia de lideranças eclesiais que se reúne em nome do crucificado? O que essa vítima do consórcio entre as elites do judaísmo e os colonizadores romanos fala aos parlamentos e tribunais de hoje? Como Jesus se sente ostentado como joia anexada a cordões caríssimos? Será que é possível esquecer que o crucificado nos remete a um corpo humano violentado?

Na cruz, Deus se faz carne para que toda carne seja revelação de Deus. Faz-se vítima em meio às vítimas para que não se faça mais vítimas em nome dele. Faz-se entrega livre e generosa para sustentar todas as entregas solidárias. Derruba os muros que separam e opõem homens e mulheres que têm a mesma origem e o mesmo destino. Revela-nos a humanidade nua e original, que relativiza todos os títulos e grandezas e a todos iguala.

O Papa Leão XIV nos ensina que “a carne do Filho, pobre e vulnerável, remete para a carne de tantos irmãos e irmãs despojados da sua dignidade e reduzidos ao silêncio. Nesta carne ferida e amada, o Pai mostra-nos a verdadeira humanidade de uma vida que se realiza na abertura e na comunhão, a ponto de nos fazer desejar que a sua vontade se faça assim na terra como no Céu” (Magnifica Humanitas, § 231). Fala-nos, Senhor!

Dom Itacir Brassiani msf

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24/07/2026 | gazetapopular.com