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OPINIÃOPor Dom Itacir Brassiani msf Bispo Diocesano de Santa Cruz do Sul

Um falso dilema

Há alguns anos atrás a revista Veja publicou uma entrevista com o filósofo Michel Onfray.

Publicado em 03/07/2026 às 09:59

Negar os interesses mesquinhos ou o Evangelho?

Há alguns anos atrás a revista Veja publicou uma entrevista com o filósofo Michel Onfray. Nela, o pensador francês afirma, entre outras coisas, que a leitura dos textos das religiões leva qualquer pessoa inteligente à conclusão de que todas as religiões são ilusões humanas e produzem violência, e que Deus é incompatível com a liberdade humana.

É oportuno refletir, mesmo que seja brevemente, sobre uma entre as suas diversas afirmações feitas na entrevista: “Só um homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana”, e porque “o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do islã é um entrave e um inibidor da autonomia do homem”.

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Michel Onfray está na linha dos críticos da religião do século XIX (Nietsche, Marx e Freud). O cristianismo da época bebia da filosofia deísta, que via confronto entre Deus e o Ser humano: para afirmar a iniciativa de Deus deve-se negar o valor da liberdade humana, e a afirmação da liberdade humana só é possível mediante a negação de Deus.

Mas reduzir a religião a essa ideia de Deus e da liberdade humana significa desconhecer a evolução do pensamento teológico dos últimos dois séculos. No caminho aberto pela teologia clássica, as boas teologias de hoje articulam de uma forma exigente e coerente Reino e História, Graça divina e Liberdade humana, ação de Deus e luta social.

Faz tempo que muitos cristãos e outros crentes procuram crer com honradez intelectual, mostrar a complementaridade entre razão e fé, e enfatizar as consequências éticas e sociais da religião. Sem falar nos inumeráveis testemunhos históricos de homens e mulheres radicalmente livres, e no engajamento dos cristãos nas lutas emancipatórias.

É verdade que, em nome da fé, foram feitas guerras e legitimadas dominações de gênero, de classe, de cultura, de nação, etc. Mas isso faz parte da ambivalência de todos os movimentos históricos e iniciativas humanas, inclusive da filosofia e da religião. Não é verdade que, por trás de cada ideologia totalitária, está uma corrente filosófica?

Afirmando a transcendência absoluta de Deus, a teologia judaico-cristã relativiza todos os conceitos e instituições. Ao mesmo tempo, afirma a dignidade incorruptível de cada criatura, em razão de sua relação ontológica com a divindade. O conflito só existe entre um pensamento fechado e uma noção de Deus como Outro que chama, desperta e envia.

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03/07/2026 | gazetapopular.com