Zaira Maria Bastos dos Santos: uma vida de coragem, alegria e amor às tradições
Homenageada em memória durante a XXX Semana Farroupilha de Passo do Sobrado, Zaira deixou uma trajetória marcada pela dedicação à família, pelo envolvimento comunitário, pela paixão pelo tradicionalismo e por uma admirável história de superação

A homenagem prestada em memória de Zaira Maria Bastos dos Santos durante a XXX Semana Farroupilha de Passo do Sobrado foi recebida pela família com emoção, orgulho e gratidão. Falecida em 1º de junho de 2025, aos 58 anos, ela permanece viva nas lembranças dos familiares, amigos e integrantes da comunidade de Passo da Mangueira, onde construiu grande parte de sua história.
Zaira foi reconhecida como Patrona Farroupilha in memoriam em uma sessão solene realizada durante os festejos de 2026. A distinção recordou sua participação nas atividades tradicionalistas, o apoio oferecido ao CTG Gaudérios da Querência e sua presença constante nos eventos comunitários.
Mais do que uma homenagem individual, o reconhecimento resgatou a história de uma mulher extrovertida, trabalhadora e comprometida com a família e com a comunidade. Uma mulher cuja risada inconfundível, segundo os familiares, ainda permanece na memória de todos que tiveram a oportunidade de conviver com ela.
Infância entre a família e o meio rural
Zaira Maria Bastos dos Santos nasceu em 24 de fevereiro de 1967, no hospital de Rio Pardo. Era filha dos agricultores e pecuaristas Ilço Bastos dos Santos, nascido em 5 de maio de 1924 e já falecido, e Eva Lopes dos Santos, nascida em 3 de julho de 1936.
A escolha de seu nome também guarda uma lembrança da história familiar. Parte das terras da família havia pertencido a uma proprietária chamada Zaida. Inspirados naquele nome, os pais decidiram chamar a filha de Zaira, substituindo apenas a letra “d” pelo “r”.
Pelo lado materno, era neta de Catulino Joaquim Lopes dos Santos e Adelaide Oliveira dos Santos. Pelo lado paterno, seus avós eram João Alfredo Lopes dos Santos e Celina Bastos dos Santos, todos já falecidos.
Zaira era a caçula e a única mulher entre quatro irmãos. Cresceu ao lado de João Eraldo, Wilço e José Vilnei Bastos dos Santos, chamados carinhosamente por ela, durante a infância, de “Ieiado”, “Wit” e “Nei”.
Criada no meio rural, teve uma infância marcada pelas brincadeiras de boneca e casinha, pelo contato com a lavoura e pela atenção recebida dos familiares, especialmente da tia paterna Tarcila. Uma das lembranças mais afetivas era o momento em que esperava o pai retornar do trabalho na lavoura. Depois que ele tomava banho, Zaira o acompanhava durante o chimarrão.
Apesar do carinho e da aparência delicada — a família recorda a menina de pele muito clara —, ela também era conhecida pelas travessuras. Eva, sua mãe, costumava contar que havia criado os três filhos homens mantendo um vaso de enfeite intacto sobre a mesa da sala. Entretanto, bastou Zaira crescer um pouco para que o vaso fosse quebrado.
Outra aventura envolveu a bicicleta dos irmãos. Como precisava andar escondida, Zaira pedalava pelo pátio e, ao terminar, passava uma vassoura no chão para apagar as marcas dos pneus e evitar que descobrissem sua travessura.
Uma cicatriz em um dos braços também carregava uma história daquele período. Enquanto lavava as formas utilizadas pela mãe para fazer queijadas, um dos irmãos teria brincado e dado um chute nela. Zaira segurava uma chaleira com água quente, que acabou virando sobre seu corpo e provocando a queimadura.
Ela gostava de recontar essas histórias, sempre com bom humor, mantendo vivas as lembranças de uma infância simples, livre e cercada pelo afeto familiar.
Problema cardíaco foi descoberto aos seis anos
Ainda criança, Zaira e a família enfrentaram momentos difíceis. Um dos episódios que mais a marcou foi o acidente sofrido pelo pai, quando um trator virou sobre ele.
Aos seis anos, ela também foi diagnosticada com um sopro no coração. A descoberta deu início a uma rotina de consultas, tratamentos e períodos de internação no Instituto de Cardiologia, em Porto Alegre. Com o acompanhamento médico, seu quadro apresentou melhora e, durante muitos anos, ela conseguiu levar uma vida ativa.
Inicialmente, Zaira estudou na escola onde lecionava a professora Iraci. Na adolescência, passou a frequentar o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, em Rio Pardo, instituição posteriormente denominada Colégio Romano.
Foi durante as viagens de ônibus para estudar que conheceu Lauro Luiz Souza da Rosa, que trabalhava como cobrador. O encontro deu início a uma nova etapa de sua história.
Casamento, trabalho e nascimento das filhas
Zaira e Lauro casaram-se em 23 de fevereiro de 1985, um dia antes de ela completar 18 anos. Após o casamento, mudaram-se para Várzea do Capivarita, onde passaram a morar com Leda, mãe de Lauro. Na localidade, a família era proprietária da estação rodoviária.
O casal permaneceu na comunidade por aproximadamente três anos. Depois, retornou para Passo da Mangueira, onde Zaira retomou a convivência próxima com seus familiares.
Inicialmente, ela e o marido trabalharam na produção de tabaco com João Eraldo, irmão de Zaira. Mais tarde, tornaram-se sócios do matadouro pertencente a Adão, tio materno dela. Posteriormente, mudaram-se para a antiga venda de Catulino, avô materno de Zaira. O comércio havia sido deixado como herança aos seus pais, Ilço e Eva.
Do casamento nasceram as duas filhas: Thamy Katiucia Santos da Rosa, em 19 de junho de 1986, e Thamylla Katielle Santos da Rosa, em 28 de agosto de 1994.
Zaira conciliava o trabalho com os cuidados da casa e da família. Era reconhecida como uma mulher honesta, responsável e comprometida com tudo o que assumia. Ao longo da vida, também trabalhou em diferentes estabelecimentos comerciais.
Cirurgia cardíaca e uma nova superação
Aos 34 anos, Zaira precisou enfrentar um dos momentos mais delicados de sua trajetória. O problema cardíaco voltou a exigir cuidados mais intensos, sendo necessária uma cirurgia para a substituição das válvulas mitral e aórtica.
O procedimento trouxe preocupação e angústia aos familiares. Amparada pela fé e pelo apoio das pessoas próximas, ela enfrentou a cirurgia e conseguiu se recuperar.
A experiência tornou-se mais uma demonstração da força que marcaria sua vida. Mesmo convivendo com limitações e cuidados médicos, Zaira não deixou de trabalhar, participar da comunidade, cuidar dos familiares e aproveitar os momentos ao lado das pessoas que amava.
Presença no tradicionalismo e na comunidade
O envolvimento comunitário sempre teve espaço importante na vida de Zaira. Ela e Lauro foram festeiros da Comunidade Nossa Senhora do Mont Serrat, em Passo da Mangueira. Quando o marido assumiu como patrão do CTG Gaudérios da Querência, contou com a presença, o incentivo e o trabalho constante de Zaira.
Ela gostava de participar dos eventos do CTG, dos bailes e das demais atividades tradicionalistas. Dançar, encontrar os amigos e colaborar com a organização das programações eram momentos que lhe davam alegria.
O tradicionalismo não representava apenas o uso da pilcha ou a participação em festas. Para Zaira, estava relacionado à convivência, à hospitalidade, ao respeito às raízes e ao sentimento de pertencimento à comunidade.
Nos negócios, o casal também administrou por aproximadamente três anos a lancheria Pic Nic, em Santa Cruz do Sul. Zaira demonstrava facilidade no atendimento ao público e gostava de conversar, brincar e acolher as pessoas.
Perda do pai marcou profundamente sua vida
Em 9 de fevereiro de 2006, Zaira enfrentou a morte do pai, Ilço. A perda teve um impacto profundo, pois os dois mantinham uma relação de muito afeto e proximidade.
Depois do falecimento de Ilço, Eva passou a morar com a filha e sua família. Zaira dedicou-se aos cuidados da mãe, com quem permaneceu até precisar ser hospitalizada, em 14 de janeiro de 2025.
Em 2012, Zaira e Lauro se divorciaram. Ela mudou-se para Santa Cruz do Sul acompanhada da mãe e da filha Thamylla. Na cidade, trabalhou inicialmente em uma padaria e, depois, em uma lancheria.
Uma nova família e muitos momentos felizes
Em 2014, Zaira conheceu Mauro José Preuss, com quem viveu até o fim de sua vida. Os dois formaram um casal parceiro, divertido e disposto a aproveitar os momentos juntos.
Gostavam de participar dos eventos realizados no município, acompanhar campeonatos de bocha, encontrar os amigos para partidas de canastra e pife e passear com a família.
Com o relacionamento, Zaira acolheu como parte de sua família as enteadas Josiane, Luciana e Lisandra. Também dedicava grande carinho aos “netos emprestados” Gabrielle, Ítalo, Ninah, Lívia e Otávio, além dos genros Jorge, Fernando e Adriano.
A facilidade em acolher as pessoas era uma de suas características mais lembradas. Zaira fazia amizades com naturalidade, gostava de brincar e tinha sempre uma palavra ou um gesto de ajuda. Mesmo diante das dificuldades, procurava manter o bom humor.
A “joia” da avó Zaira
O ano de 2018 reuniu duas grandes alegrias. Zaira acompanhou a formatura da filha Thamylla e celebrou o nascimento da neta Isadora, a quem chamava carinhosamente de sua “joia”.
Como avó, tornou-se presença constante, amorosa e participativa. Gostava de acompanhar o crescimento da neta e valorizava cada encontro em família.
Em 2023, viveu outra realização ao acompanhar a formatura da filha Thamy. Para Zaira, as conquistas das filhas também eram suas. A educação, o trabalho e a união familiar estavam entre os valores que procurava transmitir.
Ela mantinha ainda uma relação muito próxima com o genro Roger. Os dois brincavam constantemente e compartilhavam momentos de grande descontração. Quando queria provocá-lo de forma carinhosa, Zaira o chamava de “Roginho”.
Essa ligação também carregava uma coincidência afetiva. Ilária, mãe de Roger, havia sido professora de Zaira na infância, enquanto Zaira cuidara de Débora, irmã dele. Anos depois, as histórias das duas famílias voltaram a se encontrar por meio do casamento de Thamy.
O sonho de viajar de avião
Em 2024, Zaira conseguiu realizar um sonho antigo: viajar de avião. O destino escolhido foi Salvador, na Bahia.
Ela fez a viagem acompanhada da filha Thamy, da neta Isadora, do genro Roger e do companheiro Mauro. O passeio tornou-se uma das últimas grandes lembranças felizes vividas pela família ao seu lado.
Para uma mulher que enfrentara tantos desafios relacionados à saúde, embarcar em um avião e conhecer outro estado representou mais do que uma viagem. Foi a concretização de um desejo e a oportunidade de criar novas memórias com as pessoas que amava.
A última batalha
Zaira foi hospitalizada em 14 de janeiro de 2025. Durante os meses seguintes, enfrentou uma sequência de obstáculos, tratamentos e procedimentos. Segundo a família, 99 dias desse período foram vividos no Instituto de Cardiologia, em Porto Alegre.
A segunda cirurgia cardíaca apresentava riscos elevados. Mesmo com medo, ela decidiu enfrentar mais uma vez o procedimento. A operação foi realizada em 24 de fevereiro de 2025, justamente no dia em que completou 58 anos.
A família acompanhou cada etapa, mantendo a esperança em sua recuperação. Zaira lutou até o fim, demonstrando a mesma persistência que havia marcado toda a sua trajetória. No dia 1º de junho de 2025, entretanto, morreu em decorrência de uma parada cardiorrespiratória.
Sua partida deixou saudade entre familiares, amigos e integrantes da comunidade. Ao mesmo tempo, consolidou a lembrança de uma mulher que atravessou a vida com coragem, fé, alegria e dedicação às pessoas próximas.
Filhas destacam orgulho pela homenagem
Durante a homenagem prestada na Semana Farroupilha, as filhas Thamy e Thamylla representaram a família. Em entrevista, elas falaram sobre a emoção de ver a mãe reconhecida mesmo após sua partida.
“Para nós, como família, é uma honra saber que a nossa mãe, mesmo não estando mais presente aqui, ainda mora no coração da comunidade e de todas as pessoas que votaram para que ela fosse homenageada”, afirmou Thamy.
A filha lembrou que Zaira sempre teve uma ligação verdadeira com as tradições gaúchas e com as atividades realizadas em Passo da Mangueira e no município.
“Com certeza, ela é merecedora dessa homenagem. Foi uma pessoa que sempre amou a tradição e participou muito do CTG. Gostava de estar presente, de dançar e de participar não somente do CTG, mas de toda a comunidade de Passo da Mangueira e de Passo do Sobrado”, completou.
O reconhecimento também demonstrou que a atuação de Zaira ultrapassou o ambiente familiar. Sua maneira de acolher, ajudar e divertir as pessoas deixou marcas em diferentes espaços da comunidade.
Um legado que permanece
Para a família, nenhuma homenagem ou conjunto de palavras seria suficiente para expressar tudo o que Zaira representou. A saudade permanece, mas caminha ao lado do orgulho e da gratidão pelos anos de convivência.
Sua trajetória reuniu trabalho, participação comunitária, amor às tradições, dedicação à mãe, às filhas, à neta, ao companheiro e a todos que passaram a fazer parte de sua família.
Zaira Maria Bastos dos Santos deixou como legado a persistência diante das dificuldades, a capacidade de acolher e a alegria de aproveitar cada oportunidade. Sua risada, as brincadeiras, o carinho pelos amigos e o amor pela família continuam presentes nas lembranças daqueles que conviveram com ela.
A homenagem como Patrona Farroupilha in memoriam eterniza publicamente o que seus familiares já guardavam no coração: a história de uma mulher guerreira, generosa e profundamente ligada à sua comunidade.
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