Dentro de pequenos pacotes levados ao salão da Paróquia Santos Mártires das Missões havia mais do que sementes de feijão, ervilha, melão, hortaliças, plantas medicinais e ervas aromáticas. Cada variedade compartilhada durante o 26º Encontro Diocesano de Sementes Crioulas carregava também histórias familiares, conhecimentos agrícolas e características selecionadas ao longo de gerações.
Realizado na quarta-feira, 19 de agosto de 2026, em Linha Santa Cruz, no município de Santa Cruz do Sul, o encontro reuniu cerca de 600 agricultores, agricultoras, lideranças comunitárias, agentes pastorais, pesquisadores, estudantes, expositores e defensores da agroecologia. A atividade foi promovida pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Diocese de Santa Cruz do Sul.
Com o tema “Das mãos das mulheres brota a vida: sementes crioulas, agroecologia e agricultura familiar camponesa no cuidado com a Mãe Terra”, a edição deste ano colocou em evidência o trabalho feminino na seleção, conservação, multiplicação e transmissão das sementes.
A programação começou pela manhã, com a recepção de caravanas vindas de diferentes paróquias, comarcas e municípios. Ao longo do dia, houve momentos de espiritualidade, bênção das sementes e dos agricultores, apresentações culturais, relatos de experiências agroecológicas e a tradicional troca de variedades.
Participaram, entre outras lideranças, o bispo diocesano, dom Itacir Brassiani; o bispo emérito, dom Aloísio Alberto Dilli; padres, religiosos e seminaristas; além do pastor Carlos Alberto Wutke, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em Monte Alverne.
A organização do evento envolveu comunidades da Paróquia Santos Mártires das Missões e instituições como a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, por meio do curso de Agroecologia, o Movimento dos Pequenos Agricultores, o Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura Familiar de Santa Cruz do Sul, o Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia e a Escola Família Agrícola de Santa Cruz do Sul. A mobilização vinha sendo preparada desde maio.
Patrimônio conservado nas propriedades
Também chamadas de tradicionais ou locais, as sementes crioulas são variedades desenvolvidas, adaptadas e conservadas pelos próprios agricultores e pelas comunidades. Diferentemente das sementes híbridas comerciais, elas podem ser selecionadas, guardadas e novamente plantadas pelas famílias, desde que sejam adotados cuidados para preservar sua qualidade e suas características.
A legislação brasileira define cultivar local, tradicional ou crioula como aquela desenvolvida, adaptada ou produzida por agricultores familiares, assentados da reforma agrária ou indígenas e reconhecida pelas respectivas comunidades. A Lei de Sementes e Mudas dispensa essas variedades da inscrição obrigatória no Registro Nacional de Cultivares quando utilizadas por esses grupos. Também proíbe restrições à sua participação em programas públicos de financiamento, distribuição ou troca de sementes.
Na prática, essas variedades permanecem vivas porque continuam sendo cultivadas. Em cada safra, as famílias observam características como sabor, cor, produtividade, resistência, ciclo de produção e adaptação ao solo e ao clima. As plantas consideradas mais adequadas dão origem às sementes reservadas para o plantio seguinte.
A Embrapa destaca que a conservação realizada nas propriedades mantém de forma dinâmica a variabilidade genética e cultural das sementes. Variedades adaptadas durante gerações contribuem para a diversidade dos sistemas agrícolas, para a segurança alimentar e para a capacidade de resposta das lavouras a diferentes condições ambientais.
Essa função é desempenhada pelos chamados guardiões e guardiãs da agrobiodiversidade: pessoas que cultivam, selecionam e compartilham variedades que poderiam desaparecer caso deixassem de ser plantadas.

“Faço isso com amor”
Entre as participantes do encontro estava a agricultora Luzia Raquel Silva Domingues, de Cerrito, no município de Cachoeira do Sul. Diretora do banco de sementes do Grupo Gaia, ela conserva espécies de hortaliças, chás, ervas aromáticas e outras plantas.
Para Luzia, guardar sementes não representa apenas uma técnica agrícola, mas um compromisso com a natureza, a memória das comunidades e as futuras gerações.
“Faço isso com amor. É um prazer trabalhar para que a natureza seja respeitada e para que os conhecimentos antigos não se percam. Preservamos várias espécies de hortaliças, chás, ervas aromáticas, entre outras plantas, e essa é uma forma de manter viva a tradição”, afirmou.
O Grupo Gaia participa de feiras realizadas em diferentes regiões do Rio Grande do Sul. Nesses espaços, as famílias trocam materiais de plantio e informações sobre cultivo, armazenamento, alimentação e usos tradicionais. Cada intercâmbio pode acrescentar novas variedades aos bancos familiares ou comunitários.
As feiras de sementes, segundo a Embrapa, ajudam a fortalecer a autonomia das comunidades rurais, o protagonismo dos guardiões e a conservação da biodiversidade agrícola. A troca direta também permite que uma mesma variedade passe a ser cultivada em diferentes propriedades, reduzindo o risco de desaparecer caso uma família perca sua produção.

Tradição renovada aos 78 anos
A continuidade desse trabalho aparece na trajetória do agricultor aposentado Roque Edvino Pick, de 78 anos, morador de Capela dos Cunha, em Passo do Sobrado. Participante frequente do encontro, ele chegou a Linha Santa Cruz acompanhado por uma comitiva de 13 pessoas.
Embora atualmente plante em menor quantidade, Roque continua guardando variedades e levando sementes para compartilhar. Nesta edição, trouxe sementes de melão, ervilha, feijão pastel e outras plantas.
“Eu não planto muito, mas sempre trago sementes para trocar com os outros. Desta vez trouxe sementes de melão, ervilha, feijão pastel e outras. É muito bom participar e rever os amigos”, relatou.
O gesto resume uma das principais características da conservação comunitária: uma semente permanece existindo porque alguém decide plantá-la, colher seus frutos, selecionar parte da produção e compartilhá-la. Ao circular entre propriedades, o material leva consigo nomes populares, receitas, modos de cultivo e lembranças das famílias que o preservaram.
Mulheres no centro da conservação
Ao destacar que “das mãos das mulheres brota a vida”, o encontro buscou dar visibilidade a um trabalho muitas vezes realizado nos quintais, hortas e roças sem reconhecimento público.
Em numerosas famílias rurais, são as mulheres que escolhem as plantas destinadas à produção de sementes, controlam o armazenamento, mantêm hortas diversificadas e transmitem às novas gerações conhecimentos sobre alimentação, plantas medicinais e aproveitamento da produção.
Esse trabalho doméstico e comunitário é decisivo para a conservação da agrobiodiversidade. Enquanto grandes lavouras costumam concentrar a produção em poucas culturas e variedades, os quintais e sistemas de agricultura familiar podem reunir alimentos, temperos, flores, árvores frutíferas e plantas medicinais com diferentes funções.
Uma rede construída desde 2001
O Encontro Diocesano de Sementes Crioulas começou a ser realizado em 2001, a partir de experiências desenvolvidas em seminários regionais de agroecologia. Desde então, passou por diferentes municípios e consolidou-se como espaço de articulação entre agricultores dos vales do Rio Pardo e Taquari e de outras regiões gaúchas.
Em 26 edições, a atividade combinou formação, espiritualidade, cultura e intercâmbio de sementes. O encontro de Linha Santa Cruz acrescentou manifestações artísticas à programação técnica e religiosa, reforçando a ligação entre agricultura, identidade e cultura popular.
Ao agradecer agricultores, lideranças, expositores e voluntários envolvidos na organização, dom Itacir Brassiani relacionou a conservação das sementes à agroecologia e ao cuidado com a “Casa Comum”. A mensagem do bispo foi também um chamado para que as comunidades continuem cultivando solidariedade, esperança e respeito à natureza.
O encerramento ocorreu com uma bênção de envio. Depois dela, os participantes voltaram para suas comunidades levando sementes recebidas durante a troca. O resultado do encontro, porém, somente poderá ser medido nas próximas safras: quando os grãos compartilhados em Linha Santa Cruz germinarem em novas terras e voltarem a produzir alimento, memória e diversidade.
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