Há datas que não passam. Permanecem. Marcam uma geração inteira e redefinem a história de uma comunidade. O dia 27 de março de 2016 é uma delas. Dez anos depois, o nome de Joangelo Martin, o “Jô” ou Beertin, segue sendo pronunciado com respeito, emoção e, sobretudo, saudade.
Mais do que relembrar uma perda, o momento é de resgatar a dimensão de quem ele foi — e por que, ainda hoje, sua ausência é sentida de forma tão intensa.
De raízes simples ao protagonismo comunitário
Nascido em 19 de julho de 1983, Joangelo cresceu em um ambiente familiar estruturado no trabalho e nos valores do interior. Filho primogênito, começou cedo na lida com os pais, na lavoura, realidade comum a muitos jovens da região.
Mas havia nele algo além: uma habilidade natural para lidar com pessoas, criar conexões e enxergar oportunidades.
Ainda jovem, conciliava o trabalho com momentos de convivência — futebol, encontros com amigos e atividades comunitárias. Foi justamente nesses espaços que começou a observar um nicho pouco explorado: o fornecimento de bebidas em eventos locais.
A partir de iniciativas simples, improvisadas e com forte apoio familiar, nasceu aquilo que se tornaria uma marca reconhecida em toda a região: Beertin Bebidas.
O crescimento não foi imediato, nem fácil. Freezers emprestados, estoque improvisado no galpão da família e entregas feitas com veículos simples faziam parte da rotina. Mas havia consistência, persistência e, acima de tudo, credibilidade.
Em 2005, a empresa foi oficialmente estruturada e, pouco tempo depois, já atendia bares, comunidades e eventos em diversos municípios da região .
O empreendedor que criou experiências
O passo seguinte foi decisivo: transformar fornecimento em protagonismo. Assim surgiu a Beertin Promoções, iniciativa que mudou o cenário dos eventos em Passo do Sobrado.
A partir de 2009, Jô passou a organizar bailes, festas e grandes encontros, trazendo bandas de renome e atraindo público de diferentes cidades. Seu trabalho ajudou a inserir o município no circuito regional de eventos.
Mas o diferencial não estava apenas na estrutura ou nas atrações.
Beertin organizava eventos com um olhar comunitário raro. Evitava competir com festas locais, respeitava calendários das comunidades e buscava fortalecer, e não substituir, as tradições já existentes .
Ao mesmo tempo, prezava pela segurança — característica que, ironicamente e de forma trágica, marcaria seu destino.
O homem que não cabia na própria história
Se o empresário já era reconhecido, a pessoa por trás da marca era ainda mais admirada.
Reservado, evitava exposição. Preferia que seu trabalho fosse o destaque. Mesmo atuando no ramo de bebidas, não consumia álcool — um contraste que revela sua disciplina pessoal.
Era descrito como alguém atento, cuidadoso, sempre preocupado com os outros. Um irmão presente, um filho dedicado, um amigo leal.
Sua rotina era intensa: administrava a distribuidora, ajudava a família e mantinha contato constante com clientes. Ainda assim, encontrava tempo para suas paixões — como as trilhas com o grupo Bugres do Barro, onde cultivava amizades verdadeiras.
O dia que mudou tudo
A morte de Beertin não foi apenas uma tragédia individual — foi um trauma coletivo.
Durante um evento no salão paroquial, ao tentar intervir em uma confusão, ele foi atingido por disparos. O episódio chocou a cidade e rapidamente mobilizou toda a região.
As investigações apontaram a autoria, e o suspeito foi preso dias depois, em uma operação policial . Ainda assim, nada foi capaz de amenizar o impacto da perda.
O velório, realizado no Ginásio Ernani Weber, reuniu uma multidão. O cortejo foi acompanhado por centenas de pessoas, em um dos momentos mais marcantes da história recente do município .
Motores acelerando, silêncio coletivo, lágrimas — e uma cidade inteira tentando entender o que havia acontecido.
A cidade que se uniu pela memória
Nos dias seguintes, a comoção se transformou em mobilização.
Por meio de redes sociais e grupos de mensagens, nasceu o movimento #SomosTodosBeertin. A comunidade organizou uma caminhada silenciosa, reunindo pessoas vestidas de preto, carregando balões brancos.
O trajeto percorreu as ruas da cidade até o salão paroquial — símbolo de sua história.
Ali, entre orações e homenagens, o silêncio falou mais alto que qualquer discurso.
A homenagem que traduz o sentimento coletivo
Dez anos depois, as palavras ainda encontram dificuldade para traduzir a ausência. Mas algumas vozes conseguem sintetizar o que muitos sentem.
A mensagem de Catieli Kist representa esse sentimento coletivo:
“Não deixem ele ser esquecido. Contem aos jovens tudo o que ele fez e foi. O Jo foi daquelas pessoas raras, que movimentavam a cidade, que acreditavam na alegria, nos encontros, na união.
Sempre disposto a ajudar, com um coração generoso e uma energia que contagiava.
Eu sinto saudades do grande cara que ele foi, amigo, empresário, promotor de eventos e um ser humano incrível.
Jô, você foi todo coração. Talvez por isso não esteja aqui hoje. Sou grata por tudo que ele nos proporcionou. E como ele mesmo dizia: ‘Valeu, valeu’.”
Entre a dor e o legado
Passo do Sobrado seguiu em frente. Novos eventos surgiram, novos empreendedores apareceram, a cidade continuou seu curso.
Mas há algo que não se substitui.
Beertin representava um tipo de liderança espontânea — construída no dia a dia, no contato direto, na confiança das pessoas. Não era apenas um organizador de festas, mas um articulador social, alguém que criava encontros e fortalecia vínculos.
Seu nome ainda é lembrado em conversas informais, em histórias contadas entre amigos, em referências de quem viveu aquela época.
Dez anos depois
Uma década não apaga uma história como essa.
Ao contrário: transforma lembrança em legado.
Beertin permanece vivo na memória coletiva, nas marcas que deixou, nas pessoas que influenciou e nos valores que representou.
E, talvez, a melhor forma de resumir sua trajetória ainda seja a mais simples — e a mais verdadeira:
Ele foi daqueles que fizeram diferença. E por isso, jamais será esquecido.
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