Na última segunda-feira (19.10.2026), o jornalista Romeu Newman publicou no jornal Gazeta do Sul uma crônica com o título “o estrago está feito”. Começa elogiando os Bispos que pastorearam a Diocese de Santa Cruz do Sul, sublinhando sua reconhecida ponderação, recato, dedicação e distância das questões polêmicas. Depois, lamenta a ausência do bispo atual na vida das paróquias, por estar afogado nas redes digitais e na militância política.
Como cristão e como cidadão, o referido jornalista diz que o Povo de Deus da diocese deseja e necessita de um pastor identificado com o seu rebanho, capaz de reunir, motivar e inspirar os fiéis no caminho do bem; um líder que promova a harmonia, que traga luz e guie no discernimento, sem envolvimento em questões políticas. Em outras palavras, não precisam de um militante político, um doutrinador político e ideológico. Mas o estrago já estaria feito…
Sobre a minha ausência ou presença na vida das comunidades, quem pode falar é o povo das 51 paróquias da diocese e das dezenas de organismos pastorais e movimentos religiosos. Sobre minha suposta absorção pelas redes sociais, podem falar aqueles que participam do meu dia-a-dia. Sobre as supostas manifestações partidárias, convido quem tiver dúvidas a participar das minhas celebrações e pregações e verificar minhas publicações no Facebook.
Entretanto, naquilo que se refere à dimensão social e política da fé e do ministério, convido quem compartilha destas críticas a fazer uma rápida visita os evangelhos e às orientações pastorais da Igreja. Leão XIV diz com clareza: “Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros nem é suficiente pensar ‘não ser cúmplice’” (Magnifica Humanitas, § 216).
O Brasil vive uma destas situações. No próximo domingo não escolheremos este ou aquele presidente, nem votaremos pela esquerda ou pela direita. Estaremos escolhendo entre dois projetos: um Estado democrático, minimamente social e previsível; um Estado excludente, com tendências autoritárias e eivado de sentimentos fascistas, sem nenhuma sensibilidade social, ambientalmente insustentável e levado adiante por agentes pouco confiáveis.
Por vocação, o Bispo é Pastor, e deve congregar e cuidar, particularmente das ovelhas mais vulneráveis. Mas é também Profeta, e tem o dever de se manifestar quando o que está em jogo é o bem comum e o bem dos pobres, a dignidade de membros do seu rebanho ou de uma nação inteira. Depois de termos enveredado pelo caminho do autoritarismo e consolidado um Estado que defende os fortes e pune os fracos, de pouco servirá clamar a Deus e lamentar.
Dom Itacir Brassiani msf



