A partir da entrada em vigor das novas diretrizes da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), a principal referência da Segurança e Saúde no Trabalho (SST) no Brasil, a saúde mental deixa de ser um tema secundário e passa a integrar oficialmente o gerenciamento de riscos ocupacionais. A mudança representa uma transformação histórica para diversos setores produtivos, incluindo a fumicultura, uma das principais atividades econômicas do Vale do Rio Pardo e do Centro-Serra gaúcho.
Até então, quando se falava em segurança no cultivo do tabaco, as preocupações concentravam-se nos riscos físicos da atividade, como acidentes com máquinas, exposição a defensivos agrícolas, problemas ergonômicos e a Doença da Folha Verde do Tabaco (DFVT), causada pela absorção da nicotina através da pele durante o manejo das folhas úmidas.
Agora, a legislação amplia o conceito de proteção ao trabalhador e passa a exigir que fatores como estresse crônico, sobrecarga de trabalho, pressão excessiva, esgotamento emocional, assédio moral e outras situações que afetem a saúde psicológica sejam identificados, avaliados e monitorados dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Embora a norma tenha sido inicialmente direcionada ao ambiente empresarial urbano, seus reflexos chegam diretamente ao campo.

A pressão invisível que acompanha cada safra
Para quem vive da produção de tabaco, o desafio vai muito além do plantio.
O produtor rural convive diariamente com fatores que escapam ao seu controle. As condições climáticas, o risco constante de granizo, estiagens prolongadas, excesso de chuvas, oscilações de mercado, custos de produção elevados e a expectativa pela comercialização da safra formam um cenário permanente de pressão emocional.
Durante o período de colheita e secagem, muitas famílias permanecem em regime praticamente contínuo de trabalho. Em diversas propriedades, o monitoramento das estufas exige atenção durante o dia e a noite, reduzindo o tempo de descanso e aumentando o desgaste físico e mental.
Para o psicólogo e pesquisador da área de saúde do trabalhador, Christophe Dejours, o sofrimento relacionado ao trabalho nem sempre é visível.
Segundo ele, quando a pressão se torna constante e não existem mecanismos adequados de enfrentamento, o desgaste emocional pode evoluir para quadros de ansiedade, depressão e esgotamento profissional.
Na fumicultura, esse cenário costuma ser agravado pelo fato de que trabalho, família e renda estão frequentemente concentrados no mesmo espaço: a propriedade rural.
Comercialização também gera ansiedade
Se o período de produção é intenso, a fase de comercialização costuma ser apontada por produtores como um dos momentos de maior tensão emocional.
A classificação da folha realizada pelas empresas integradoras influencia diretamente a renda anual da família. Diferenças de enquadramento podem representar milhares de reais no resultado final da safra.
“É um período de expectativa muito grande. O produtor passa meses trabalhando e, no momento da venda, uma avaliação pode determinar o sucesso ou a frustração de todo um ano”, relata um técnico agrícola que acompanha produtores da região.
Essa combinação entre dependência econômica, fatores climáticos e incertezas comerciais cria um ambiente reconhecido por especialistas como potencial gerador de riscos psicossociais.
O que muda na prática para o setor rural?
Especialistas em Direito do Trabalho explicam que a NR-1 passa a exigir que empregadores identifiquem riscos psicossociais da mesma forma que já identificam riscos físicos, químicos e biológicos.
A advogada trabalhista Daniela Gomez Naves destaca que fatores como pressão excessiva, sobrecarga constante, metas inalcançáveis e ambientes de trabalho hostis agora fazem parte do escopo oficial da gestão de riscos ocupacionais.
“Não basta possuir códigos de conduta ou realizar treinamentos pontuais. Será necessário demonstrar ações concretas de prevenção, monitoramento e gestão dos riscos psicossociais”, afirma.
Nas propriedades rurais que contam com empregados contratados, a adequação deverá ocorrer por meio da atualização dos Programas de Gerenciamento de Riscos, incorporando avaliações relacionadas ao ambiente organizacional e às condições de trabalho.
Como fica a agricultura familiar?
A realidade da agricultura familiar apresenta particularidades.
Grande parte das propriedades produtoras de tabaco no Sul do Brasil opera com mão de obra predominantemente familiar. Nesses casos, a exigência legal direta possui limitações, mas os reflexos da nova norma tendem a chegar por meio das cadeias produtivas.
Empresas integradoras, cooperativas e entidades certificadoras vêm ampliando exigências ligadas à responsabilidade social e às boas práticas de trabalho.
Especialistas avaliam que programas de orientação, acompanhamento psicossocial e ações voltadas à qualidade de vida dos produtores devem ganhar espaço nos próximos anos.
Mudança cultural no campo
Para a coordenadora do Conselho Estratégico Trabalhista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Gilda Figueiredo, a maior transformação exigida pela NR-1 não é documental, mas cultural.
“A saúde mental deixa de ser um tema secundário e passa a integrar oficialmente a gestão de segurança e saúde no trabalho. As organizações que adotarem uma cultura preventiva estarão mais preparadas para enfrentar os desafios do futuro”, afirma.
O entendimento também começa a ganhar força entre lideranças rurais e especialistas do agronegócio.
A percepção de que saúde mental interfere diretamente na produtividade, na sucessão familiar, na permanência dos jovens no campo e na sustentabilidade econômica das propriedades tende a crescer nos próximos anos.
Uma nova realidade para a fumicultura
No Vale do Rio Pardo, região responsável por uma das maiores produções de tabaco do mundo, a atualização da NR-1 inaugura uma discussão que até pouco tempo era rara dentro das propriedades rurais.
Mais do que cumprir uma exigência legal, a nova regulamentação abre espaço para que produtores, sindicatos, entidades representativas e indústrias debatam um tema que sempre esteve presente, mas muitas vezes permaneceu invisível: o impacto emocional de uma atividade marcada por responsabilidade, dedicação intensa e constante exposição a riscos econômicos e climáticos.
A partir de agora, a segurança no trabalho deixa de ser medida apenas pelo uso correto dos equipamentos de proteção ou pela prevenção de acidentes físicos. O equilíbrio emocional e a saúde mental também passam a fazer parte da sustentabilidade da produção rural.
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