A transmissão da Covid-19 continua acontecendo majoritariamente pelo ar, mesmo em meio à percepção de controle da doença. A afirmação é do médico pneumologista Dr. Carlos Eurico Pereira, que alerta para os riscos de contágio em ambientes fechados, especialmente por pessoas com sintomas respiratórios. Segundo ele, embora a vacina seja fundamental para reduzir a gravidade da infecção, a principal forma de prevenção segue sendo o cuidado com a exposição ao vírus.
“Transmissão se dá predominante, se não quase totalmente, por via inalatória respirar as gotículas contaminadas de pessoas próximas que estão espirrando, tossindo, contaminadas”, afirma
A declaração vem em meio ao surto de Covid-19 registrado no Hospital Conceição, em Porto Alegre. A instituição confirmou, na quarta-feira, 03, a segunda morte causada pela doença desde o início do surto, no mês de agosto. A vítima, que faleceu na segunda-feira 1º, não estava vacinada, segundo a direção do hospital. A primeira morte ocorreu na quinta-feira anterior, dia 28.
Desde o início do monitoramento, em 16 de agosto, 62 pacientes e cinco funcionários testaram positivo para o coronavírus. Nesta quarta, 19 pacientes permaneciam internados com a doença. Os profissionais infectados foram afastados e os pacientes isolados para tratamento. A cepa identificada é considerada de baixo risco, mas altamente contagiosa.
De acordo com o hospital, o surto foi identificado após pacientes com outras queixas clínicas começarem a apresentar sintomas respiratórios. Diante da confirmação da Covid-19, medidas de contenção foram adotadas, entre elas as visitas foram restritas a apenas um acompanhante por paciente, e todos os visitantes estão sendo obrigados a usar máscaras, que são fornecidas pela própria instituição. A Vigilância Epidemiológica de Porto Alegre acompanha o caso.
Embora a vacinação siga como um pilar essencial do combate à doença, o especialista ressalta que ela não impede o contágio, a principal medida de prevenção contra a Covid-19 não é a vacina. “A principal medida é cuidar do contato com pessoas que estejam com sintomas gripais. As vacinas existentes protegem principalmente contra as formas graves, mas não contra a transmissão. Quem está vacinado pode pegar o vírus igualmente, só que a tendência é que os sintomas sejam mais fracos”, destaca.
Segundo ele, o atual momento é propício ao aumento de casos não apenas de Covid, mas também de influenza e outros vírus respiratórios, devido às condições climáticas típicas do inverno.
“Na verdade, é comum surtos de influenza, de gripe ou até mesmo de Covid em qualquer época do ano, embora seja mais comum nos meses frios. A variação térmica, como vem acontecendo ultimamente, favorece com que episódios de infecções virais aconteçam com mais frequência”, esclarece.
Transmissão é facilitada por ambientes fechados
O médico também reforça que a transmissão é facilitada por ambientes fechados e pouco ventilados, uma situação comum em dias frios e chuvosos. “Quando as pessoas estão em ambiente fechado, em maior número, o risco de transmissão aumenta. E a gente tem aí alguns vírus altamente transmissíveis, como é o caso da influenza do grupo A, o H1N1, e também algumas cepas do vírus da Covid-19”, esclarece.
Em relação à circulação em ambientes públicos ou de saúde, o médico recomenda o uso de máscaras por pessoas sintomáticas e a adoção de medidas de proteção, principalmente entre os mais vulneráveis.
“Nesse período de bastante circulação de vírus, um cuidado para quem vai a pronto-socorro, casas de saúde ou hospitais seria utilizar máscara. Especialmente se é idoso ou de grupo de risco. Muitas pessoas vão ao hospital com sintomas gripais. Tivemos neste inverno uma onda de Influenza A, depois Influenza B, e alguns casos de Covid. Tirando o surto no Conceição, não temos visto surtos semelhantes em outras instituições ou casos mais graves”, afirma.
O especialista também apresentou dados sobre a gravidade dos quadros respiratórios registrados no país no primeiro semestre de 2024. O vírus sincicial respiratório (VSR) foi responsável por cerca de 45% das internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). A Influenza A representou cerca de 19%, a Covid-19 ficou com 18% e a Influenza B com menos de 1% dos casos graves.
Cuidados corretos com o uso de máscara
Sobre o uso de máscara, Dr. Eurico é categórico: qualquer pessoa com sintomas gripais deve usá-la, especialmente em locais de grande circulação. “Essa é a medida que realmente ajuda a reduzir a transmissão. Não precisa todo mundo usar máscara, mas se eu estou com sintomas gripais, é uma medida cidadã. O que a gente tem visto é que parece que as pessoas não aprenderam nada durante a pandemia. Pessoas com diagnóstico de gripe A, B ou Covid continuam circulando, até mesmo em consultórios ou hospitais, sem máscara. Está completamente incorreto. Se você tem sintomas gripais, pense no próximo e use máscara”, afirma.
Além disso, ele orienta sobre os cuidados corretos com o uso de máscara, como não tocar a parte frontal com as mãos sujas, trocá-la a cada três ou quatro horas, e sempre higienizar as mãos antes de colocá-la ou removê-la.
Vírus pode permanecer em superfícies por até 72 horas
Apesar de o vírus poder permanecer em superfícies por até 72 horas, o médico esclarece que a transmissão por contato com objetos é pouco significativa.
“Embora o vírus do SARS-CoV-2 possa sobreviver em superfícies, isso não se leva muito em consideração em termos de transmissibilidade. A transmissão é considerada praticamente inexistente por objetos. A recomendação de lavar as mãos ao tocar superfícies, cumprimentar pessoas, é uma medida que evita bastante a transmissão, não só do vírus da Covid, mas também da Influenza e outros”, esclarece.
O foco, segundo ele, deve estar na transmissão aérea. “A transmissão do SARS-CoV-2 se dá principalmente através da inalação de gotículas, das pessoas que espirram, que tossem. Que aparecem no ar que a gente respira. Essa é realmente a principal causa de transmissão”, afirma.
Com a confirmação de novos casos e mortes, o episódio no Hospital Conceição serve como um alerta de que a pandemia pode ter perdido força, mas a Covid-19 ainda não acabou e continua exigindo responsabilidade coletiva.
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