Há quem questione se faz sentido celebrar um dia de ação de graças quando o mundo vive o terror de guerras, o aquecimento global coloca o planeta no risco a extinção, a região amazônica sofre as feridas de uma seca nunca vista e nós, no Vale do Rio Taquari e do Rio Pardo ainda temos expostas as feridas de enchentes devastadoras. Parece que temos mais motivos para lamentar, temer e protestar que para agradecer.
Se considerarmos a história do povo hebreu, ele teve motivos de sobra para lamentar, protestar e desesperar. Inumeráveis foram os exílios, as invasões, as guerras, as tragédias, as divisões internas e as lutas fraticidas, as secas e as rapinas. No entanto, no final do Antigo Testamento, um crente escrevia: “Em tudo, Senhor, engrandeceste o teu povo: tu o honraste e não o desprezaste, assistindo-o em todo tempo e lugar” (Sb 19,22).
O Cântico dos jovens na fornalha (cf. Dn 3,52-79) nos desafia a louvar a Deus desde dentro das tribulações. Ao invés de lamentar as perseguições, o fogo e as tragédias, eles convidam a natureza a fazer coro com eles no louvor a Deus. Eles nos ensinam que a natureza não é nossa inimiga, mas sujeito ativo da bênção e do louvor. Ela não é apenas o lugar físico dos acontecimentos, mas companheira e aliada na resistência e no canto.
No início dos anos 50 dC, os cristãos da Tessalônica viviam momentos difíceis. A maioria, deles havia sido escravo e recebeu o Evangelho como confirmação dos seus anseios de dignidade e liberdade. E, por isso mesmo o receberam “em meio a muita tribulação” (cf. 1,6). Sabedor disso, Paulo escreve: “Alegrai-vos sempre. Orai sem cessar. Em tudo dai graças, porque essa é a vontade de Deus, em Cristo Jesus, a vosso respeito” (1Ts 5,16-18).
As gerações posteriores conheceram acusações, perseguições, prisões, martírio, exílio. Mas em vez de pedir a Deus que os livrasse disso, pediam coragem para continuar dando testemunho (cf. At 4,23-31), e viam o futuro com esperança: “Eu vi um novo céu e uma nova terra. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque todas as coisas de antes passaram” (Ap 21,1-4).
Cercados por essa nuvem de testemunhas, damos graças a Deus ainda em meio aos destroços das enchentes, pois não esquecemos as muitas mãos que estendemos e nos foram estendidas. Damos graças a Deus porque crescemos na consciência de que a natureza não é nossa inimiga, nem apenas uma fonte inesgotável de recursos, mas fonte de bênção e de vida; ela se junta a nós na ação de graças. E damos graças a Deus também por tantos irmãos e irmãs que despertaram e passaram a cuidar com mais carinho e respeito as criaturas que Deus confiou à humanidade.
+ Dom Itacir Brassiani msf
Bispo Diocesano de Santa Cruz do Sul
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