O mês de agosto é marcado pela campanha Agosto Lilás, iniciativa nacional voltada à mobilização e à conscientização sobre o enfrentamento à violência contra a mulher. Em 2025, a ação ganha ainda mais força com o slogan “Não deixe chegar ao fim da linha. Ligue 180”, destacando o papel da Lei Maria da Penha como instrumento de proteção e transformação de vidas.
A campanha deste ano não apenas celebra os 19 anos da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), mas também reforça a responsabilidade coletiva no combate à violência de gênero, promovendo o conhecimento sobre os direitos das mulheres, os canais de denúncia e os serviços especializados de atendimento.
No Rio Grande do Sul, os números de violência contra a mulher são preocupantes. De janeiro a julho de 2025, o estado registrou 45 feminicídios consumados, com destaque para o mês de abril, que concentrou 11 casos, seguido de janeiro e junho, ambos com 9 casos. O aumento é expressivo em comparação ao mesmo período de 2024, quando foram contabilizados 30 casos.
As tentativas de feminicídio também cresceram, totalizando 159 registros apenas nos sete primeiros meses de 2025. Os dados integram o levantamento oficial dos Indicadores de Violência Contra as Mulheres no Estado do Rio Grande do Sul, atualizado em agosto deste ano, e também incluem registros de ameaças, estupros e lesões corporais.
“A violência não começa com um tapa”
Para a Major PM Michele da Silva Vargas, subcomandante do 23º Batalhão de Polícia Militar de Santa Cruz do Sul, o maior erro da sociedade é esperar a violência física para agir. Ela atua ativamente nas ações do Agosto Lilás e alerta que a maioria das vítimas já vive sob controle, medo e abuso muito antes de serem agredidas fisicamente.
“A violência é uma escalada. Ela começa com chantagens emocionais, controle do celular, restrição de salário, acusações morais e chega até relações sexuais forçadas. A agressão física dificilmente é o primeiro sinal. Quando acontece, a mulher já está fragilizada, isolada, sem apoio.”
A Major destaca que um dos maiores desafios é fazer com que a mulher reconheça que está em uma relação abusiva. Muitas acreditam que o comportamento do agressor é sinal de amor, ciúmes ou insegurança. Esse ciclo é agravado pelo afastamento de familiares e amigos.
“O agressor costuma isolar a vítima, e o entorno, percebendo isso, acaba se afastando para ‘não se meter’. Esse é o maior erro. A vítima precisa de alguém que insista, que acredite nela. E o abandono se torna ainda mais cruel quando parte dos filhos. Muitas mulheres suportam a violência por causa dos filhos, mas esses crescem, seguem suas vidas e fingem que nada acontece.”
Intervenção precoce pode salvar vidas
Romper o ciclo da violência é um passo difícil, mas fundamental. A Major Michele também reforça a importância da intervenção antes que a situação chegue a um ponto irreversível, especialmente quando o agressor tem histórico de dependência de álcool, drogas ou vícios em jogos.
“A intervenção é essencial, principalmente quando o agressor tem dependência de álcool, drogas ou jogos. A família precisa convencê-lo e, se necessário, forçá-lo ao tratamento. Muitas agressões acontecem sob efeito de substâncias. Com o tempo, a dependência se agrava e a violência aumenta e pode chegar em um feminicídio”.
Um caso que marcou
Entre os muitos casos acompanhados pela Major Michele, um, em especial, a marcou. Uma mulher do interior de Santa Cruz do Sul viveu mais de 30 anos em situação de violência doméstica, controlada completamente pelo companheiro.
“Ela só podia sair de casa para colher fumo ou prestar serviços aos vizinhos para pagar dívidas do agressor. Nunca teve roupas compradas, apenas usava peças masculinas doadas. Era obrigada a fazer todo o trabalho doméstico e rural. O único filho do casal foi expulso de casa na adolescência e criado por uma tia em Venâncio Aires.”
Anos depois, já adulto, o filho retornou para visitar a mãe e a encontrou com uma lesão no lábio. Foi então que ela relatou todo o sofrimento e revelou estar à beira do suicídio. O filho compartilhou o caso com uma prima, que havia participado de uma roda de conversa promovida pela Patrulha Maria da Penha, e juntos procuraram a Brigada Militar de Venâncio Aires.
“Montamos uma equipe e fomos até a propriedade resgatar a mulher. Ela foi levada para atendimento médico e registramos a ocorrência. A partir disso, passou a ser acompanhada pela rede de proteção, recebendo apoio psicológico, médico e social. Hoje, ela mora e trabalha em Venâncio Aires com o filho. Um caso que nos marcou profundamente, porque muita gente sabia da situação e escolheu não se envolver. E se o filho não tivesse voltado?”
Rede de proteção: cada um tem um papel
A Major ressalta que cada município possui sua própria rede de proteção e acolhimento, que envolve diversos órgãos como Polícias Civil e Militar, Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, além de secretarias municipais (Assistência Social, Saúde, Educação, Habitação e Desenvolvimento), Conselhos Tutelares, OAB, universidades, Procuradorias e Conselhos Municipais da Mulher. “Cada instituição precisa cumprir seu papel. É um trabalho conjunto. Nenhuma mulher deve passar por isso sozinha”, finaliza.
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