No conturbado e complexo lapso de tempo que vai do século XVI a meados do século XX, a relevância e a pertinência da Palavra de Deus manteve-se viva graças à fidelidade do movimento protestante. Neste período, as tradições católicas priorizaram outros aspectos das fontes da fé. Se não chegou a impedir aos fiéis o acesso às Sagradas Escrituras, A Igreja ao menos não recomendou que fosse lida e valorizada.
É claro que, enquanto inspirada por Deus, a Bíblia contém a Palavra divina. Mas que ninguém tente confinar a Palavra de Deus aos livros sagrados, aos textos escritos. A Palavra de Deus é viva e dinâmica. Jesus, a Palavra de Deus que se faz carne, precede (existiu antes) e excede (ressoa também nos acontecimentos) a Sagrada Escritura. Com a ajuda da tradição cristã viva, a pessoa de Jesus é a chave que nos abre seu sentido.
Bento XVI corrobora isso ao dizer que, em Jesus Cristo, “a Palavra eterna fez-Se pequena; tão pequena que cabe numa manjedoura. Fez-Se criança, para que a Palavra possa ser compreendida por nós. Desde então a Palavra já não é apenas audível; agora a Palavra tem um rosto”. No alto da cruz, “o Verbo emudece, torna-se silêncio de morte, porque Se disse até calar, nada retendo do que nos devia comunicar” (Verbum Domini, 12).
Vale a pena recordar aqui o apóstolo Pedro. Ele conheceu Jesus depois de uma frustrada noite de pescaria, quando ele sobe no seu barco repleto de cansaço e desolação e, desde este vazio, anuncia o Evangelho. No fim, Jesus pede que Pedro avance para águas mais profundas e lance de novo as redes. Mesmo sabendo por experiência que a hora não era adequada, em atenção à Palavre dele, jogou a rede, e foi surpreendido pelo resultado.
Que este Domingo da Palavra ressoe como apelo e seja vivido como uma oportunidade a familiarizar-se com a Palavra de Deus, permitindo que o Evangelho seja a luz a guiar nossos passos, projetos e decisões. Que ele nos ajude a avançar como peregrinos de esperança. E que, diante das Escrituras, numa atitude de escuta atenta e dócil acolhida, possamos tecer de novo os laços da unidade cristã. Afinal, católicos e evangélicos temos todos a mesma Escritura, a Palavra que se fez carne e Boa Notícia de salvação em Jesus.
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