A desigualdade social é uma tragédia global
À luz do Evangelho, Dom Itacir Brassiani reflete sobre a concentração de riqueza no mundo e a responsabilidade cristã diante da pobreza.

Falando aos trabalhadores da Previdência Social da Itália, o Papa Leão afirmou: “Existe muita riqueza no mundo, mas o número de pobres continua aumentando. Milhões de pessoas em todo o Planeta vivem na extrema pobreza e não têm acesso a alimentos, moradia, saúde, escola, eletricidade, água potável e serviços de saneamento”. E sentencia: “Isso acontece porque as riquezas permanecem nas mãos de poucos”.
Essa afirmação do Papa não carece de fundamento. Um relatório da insuspeita UBS (União Bancária da Suíça) publicado em 2024 constata: “A metade mais pobre da população global possui menos de 1% da riqueza mundial”, enquanto que “os 10% mais ricos detêm 81% da riqueza mundial, e os 1% mais ricos 44,5% da riqueza global”. É incrível, mas bastaria 2,5% da riqueza dos 1,1% mais ricos para dobrar a riqueza de quase três bilhões de pobres!
Num dos seus relatórios, a Oxfam (Comissão de Oxford para o Combate à Fome) observa que a desigualdade no mundo não é um dado estático, mas aumenta. “A riqueza dos cinco maiores bilionários do mundo dobrou desde 2020, enquanto que a de 60% da população (cerca de 5 bilhões de pessoas!) diminuiu nesse mesmo período”. Um seleto grupo de 2.891 pessoas detém um patrimônio três vezes maior que os 4 bilhões de pessoas mais pobres!
O Global Wealth Report 2026 da UBS mostra que o Brasil ocupa a quarta posição entre os países mais desiguais do planeta: 48,4% da riqueza do país está nas mãos de apenas 1% dos brasileiros. Além disso, mais de 23% da riqueza bruta das famílias está comprometida com dívidas já contraídas. “É uma situação injusta, diante da qual não podemos deixar de nos questionar e de nos comprometer com um processo de mudança”, diz o Papa Leão.
Essa desigualdade é tudo, menos natural. Ela não é resultado apenas da baixa renda dos mais pobres, mas da crescente apropriação de bens pelos mais ricos. E o injusto sistema tributário do Brasil contribui com isso, punindo os salários e premiando os lucros: enquanto os trabalhadores com salários acima de R$ 5.000,00 pagam até 27% de Imposto de Renda, os 0,01% dos brasileiros ricos pagam em média apenas 4,6%!
Já ouço o questionamento irritado de alguns fiéis: “E o que isso tem a ver com a minha religião?” E eu lembro que Jesus criticou o sacerdote e o levita por terem ignorado o homem assaltado e ferido, e elogiou um samaritano por tê-lo socorrido. Ele não cruzou os braços diante de 5000 pessoas com fome no deserto. E o seu ensino não insiste na multiplicação de orações e cultos, mas nos chama a um novo modo de viver e conviver.
Dom Itacir Brassiani msf
